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(Análise Crítica)

UMA BOA, TALVEZ EXEMPLAR, NOITADA
Um texto de Régis Antonio Coimbra


Maria José Limeira

“Uma boa, talvez exemplar, noitada”, de Régis Antonio Coimbra, é um texto interessantíssimo. 
Um tanto longo e prolixo (faz parte), mas muito inquietante.
Misto de conto e crônica, é a visão masculina da “cantada” e da “paquera”, num jogo de sedução que
termina em solidão. Com tudo que esta implica. Este autor é polêmico.
Seus textos sempre provocam discussão.
Enfocam situações esdrúxulas, e a maneira de contar toca e empolga o leitor, mantendo o estado de tensão
até o fim.
A linguagem é culta, e a forma começo-meio-e-fim não lhe tira o mérito.
Ao contrário, é esta maneira simples e reta no desenrolar da conversa que mantém o interesse do
leitor.O autor conhece bem a alma humana.
Sabe manipular conflitos.
Sua visão do relacionamento social é cruel.
Embora descreva cenas exteriores claras, é o interior dos personagens que importa.
É um texto de beleza estética acima de qualquer suspeita, sem dúvida, e muito original, apesar dos
recursos triviais que utiliza.
O tom “confessional” revela um autor que não tem medo de se olhar no espelho...

(Maria José Limeira é escritora e doce jornalista democrática de João Pessoa-PB).



- Postado por: Oficina às 10h49
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Uma boa, talvez exemplar, noitada

Régis Antônio Coimbra
Janeiro de 2000

Belo e casto Cláudio. Devia ser veado. Eu preferia que ele se chamasse Alexandre, mas se chamava Cláudio. Notou-se que ele ficou cuidando Helena, que tinha o nome certo. E parece que ela notou que ele a ficou cuidando. Mas não houve epopéia. E, para uma tragédia,ficou faltando uma catástrofe. De qualquer modo, a noite não daria o que falar. Mas falemos.
Helena era linda. E pareceu-lhe inacessível. Ou ela era inacessível e pareceu-lhe linda? Por muito tempo, praticamente toda a noite, Cláudio não conseguiu evitar de a ficar cuidando, enquanto ela conversava com outros e, pior, enquanto ele conversava com outros... Uma indelicadeza... uma grosseria, mas compreensível.
Lá pelas tantas, seus olhares se encontraram, estando os dela de passagem e os dele cravados. E ela o olhou uma segunda vez... E ele ainda estava olhando. Teria ficado desconfiada? interessada?
Notara que os olhos dele estavam cravados nela? ou teria pensado que ele cuidava sua interlocutora. Ele tinha certeza de que ela olhara para ele. Mas, como ele usava óculos, ela podia ter se confundido com algum
reflexo nas lentes dele. Ou, pior: talvez ela precisasse de óculos mas não os tivesse usando e, portanto, nem
enxergando muito. Mas devia tê-lo visto, sim, encarando-a.
Parecia ele acessível? Lindo? Promissor? Charmoso? Tarado? num bom sentido? Pelo que ele mesmo sabia, as opiniões variavam e, na opinião dele, variavam até conforme o dia. Por vezes se sentia o máximo, mas isso não
dava em nada. Outras vezes sentia-se um lixo e, lá pelas tantas, parecia-lhe que estava agradando, e ele, então, se sentia o máximo. Certamente era um mistério como as mulheres o podiam achar interessante, pois ele até se achava passável mas, também, achava seu corpo uma usina de gosmas e cheiros fundamentalmente
repulsivos... se bem que, ele filosofava, mulher gosta de cachorro fedido, por que não de seu corpo gosmento?
Seja como for, volta e meia, a supostamente bela e inacessível Helena dava uma olhada... e ele tentava disfarçar. Mas não muito. Pois, pensou, se ele parecesse desinteressado, aí mesmo é que a coisa
nunca iria rolar. Cuidou se ela mexia no cabelo. De vez em quando mexia.
E, de vez em quando, mexia mais e dava uma olhada. Será que passara a mexer mais depois que seus olhares
se encontraram? Será que, à moda feminina, ela estava dando bola? Ou será que estava apenas nervosa e desconfiada? Bem, "nervosa e desconfiada" já era um começo... afinal ele também não se sentia exatamente confortável e estava, em tese, interessado. Não: estava decididamente interessado... em tese.
Charme. Talvez ele tivesse charme. Algumas mulheres haviam se aproximado dele alegando, após algum ou muito pouco tempo, terem primeiro pensado que ele era veado e vegetariano. Outras, que era muito bem sucedido,
professor ou doutor. Outras, para espanto dele, alegavam que ele havia dado em cima delas, e elas foram conferir. Ele, então, dava em cima de mulheres?
Mas, e ali? como ele ia chegar em Helena. Algumas vezes ele resolvera ir direto até a mulher e dizer logo, de
cara, que a achara interessante e gostaria de dar em cima dela, se ela não se importasse. O pior é que até funcionara em metade das... o que? três vezes?
Na primeira vez, a mulher pediu para pensar no assunto enquanto ia ao banheiro e, voltando, e perguntada uma segunda vez,achou melhor não...
Na segunda, a outra mulher achou interessante a proposta, mas não quis dar o telefone nem quis o dele. Na terceira, depois de três encontros ele conseguiu beijar a mulher na boca, mas em um mês não chegaram a transar e ela se apaixonou por um terceiro e a coisa parou por aí... Bem. Pensando bem, nunca tinha funcionado... mas, também, o universo de tentativas era muito pequeno. Ou ele não estava se lembrando
das vezes em que tinha dado certo.
De repente, como de costume, aquelas lucubrações se consumaram acadêmicas. Pois a mulher se despediu de alguns e foi embora. Ele  sentiu, em parte, tristeza; em parte, alívio. Em outra parte, ainda, vontade da
fazer xixi. Bem, essa foi a parte mais fácil, e que trouxe um alívio mais simples.

Em casa, mais tarde, se masturbaria pensando naquela mulher, bela e inacessível, em tese. Por vezes sentia escrúpulos em fazer isso e, tanto pior, sentia vergonha por sentir vergonha... Mas, não raro, acabava
inibido mesmo e se dedicando a prazeres mais "elevados". Outras vezes masturbava-se igual... ou melhor, igual
não, pois preferia, então, olhar alguma revista de mulher pelada, mais impessoal. Se bem que ele lamentava que as mulheres que se prestavam para tirar fotos em revista de mulher pelada - ou que os editores e 
fotógrafos selecionavam para aparecerem nuas - pouco lhe parecessem "belas e inacessíveis em tese". Algumas pareciam belas mas não pareciam inacessíveis; outras pareciam inacessíveis mesmo... e a maioria não parecia muito com o que ele conhecia de mulher.
Pareciam travestis tentando parecer... mais travestis do que mulheres...
Não. Naquela noite, pensando bem, não iria sequer se masturbar, pois bebera o bastante para tornar a ejaculação improvável ou demorada, provavelmente trabalhosa. Talvez pela manhã. Talvez
amanhã. Além disso, a vantagem da punheta era ser limpa, rápida e indolor... além  de virtualmente disponível a qualquer tempo. No fim, após caminhar meia hora até chegar em casa, deitou e logo dormiu. E, duas horas
depois, acordou com tesão e, aí, após considerar brevemente a questão, bateu uma punheta que achou especialmente proveitosa.
"Muito saudável", pensou. Bebera vinho, caminhara, tivera um orgasmo, ou algo assim, e ainda tinha boas chances de dormir pelo menos umas 7h naquela noite. Se tivesse dado em cima daquela mulher e as
coisas tivessem corrido bem, não teriam sido tão confortáveis.
Virou-se para dormir de novo... mas, não exatamente para sua surpresa, o sono não veio e, por algum tempo, ele sentiu-se desconfortável. Mas aí dormiu mesmo e deu tudo certo.



- Postado por: Oficina às 10h37
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Sociedade dos poetas premiados


Divulgação
DIFICULDADE - João Andrade diz que mesmo vencendo os concursos Othoniel Menezes e o Prêmio Luís Carlos Guimarães, não consegue publicar seus trabalhos.
13/02/04

Isaac Ribeiro - Repórter

Atenção! Novos poetas e prosadores na praça. A Capitania das Artes divulgou os vencedores dos concursos literários Othoniel Menezes (poesia) e Câmara Cascudo (prosa). João Andrade venceu o primeiro concurso com o poema "Por Sobre as Cabeças"; e Everaldo Botelho Bezerra foi escolhido o melhor no segundo concurso com a obra "O Destino dos Homens e dos Deuses".

Os vencedores confirmam o talento do potiguar para a escrita, da mesma forma que esses concursos são fontes reais de abastecimento de novos talentos, garantia de um futuro cultural fértil.

Mas será que vencer um concurso literário é realmente garantia de acesso às editoras e de publicação de livros? Segundo João Andrade, não.

Ele conta que mesmo tendo vencido o Concurso Othoniel Menezes e o Prêmio Luís Carlos Guimarães de 2003, promovido pelo Governo do Estado, não consegue publicar seus trabalhos. "Os prêmios dão um certo respaldo e destaque no meio intelectual, mas para o grande público continuo sendo um desconhecido", diz João, 40 anos, professor de Língua Portuguesa, Redação e Literatura.

O vencedor do Prêmio Othoniel Menezes, além da obra vencedora, ainda tem mais um livro de poesia e outro de prosa em busca de um editor. "Agora, vou tentar novamente para ver se consigo", diz.

Mas João Andrade não deixa de considerar a realização dos concursos literários como fundamentais para os escritores em início de carreira. "Para mim como para qualquer outro iniciante, vencer um prêmio desses representa um grande incentivo, por menor que ele seja."

Ele mantém uma página na internet onde estão alguns de seus trabalhos. O endereço é: www.terravista.pt/baiagatas/3464.

A qualidade dos trabalhos chamou a atenção dos jurados. "O nível deste ano foi muito elevado, mostrando que a produção literária do Rio Grande do Norte está com um excelente nível", observa Pablo Capistrano, membro da comissão e vencedor da última edição do Concurso Câmara Cascudo.

Resultado dos Concursos Literários Othoniel Menezes (poesia) e Câmara Cascudo (prosa). Informações: 232 4946 / 611 1595.

Fragmentos da Noticia veiculada na data cima referida no Jornal Tribuna do Norte. Matéria Completa Online in: www.tribunadonorte.com.br



- Postado por: Oficina às 20h26
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Pontes

Pontes...

 

 

de hidrogênio

de pedras

de safena

em arco

pendentes

elevadiças

 

sou mesmo uma ilha

cercada de pontes

e outras ilhas

continentes

vulcões

 

submersa está minha base

meus abismos

meus naufrágios

muitos esqueletos

e tesouros

 

Sobre mim

nuvens de chuva

chovem-me no molhado

disfarçando minhas lágrimas

algumas tristes, outras alegres

outras de crocodilos



- Postado por: Régis Antonio Coimbra às 00h40
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náusea

 

tua falta

me embrulha

a alma

 

Dira Vieira



- Postado por: Oficina às 11h24
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