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Análises Críticas

O texto Dor Antiga, da poetisa Maria José Limeira apresenta dois movimentos: Um estando na primeira estrofe e o outro conseqüentemente na segunda. No primeiro momento o sujeito-poético demonstra uma paisagem um contexto do passado. Já no segundo momento, apresenta a atualidade.
O título do poema está intimamente ligado à condição do estado inicial do sujeito-poético, a saudade, que a lembranças dos tempos antigos lhe trazem. Contudo esse sentimento de dor, a ausência da condição primeira está diretamente ligada ao estado presente, o qual se encontra na segunda estrofe.
A poetisa utiliza de alguns recursos, e o principal deles, acredito ser o jogo metafórico (utilizando-se da figura da casa, do lar, da cama para associar ao ser amado, ao desejo). 
Outro recurso utilizado e bem percebido foi a escolhas das rima. Estas são pobres, entretanto, imagino que sejam para reforçar um eu-poético comum, qualquer indivíduo pode identificar-se com o seu discurso, com a sua forma:
dia / cobria - sombria / vazia
bruma / espuma
mar / luar
pó / só
dissoante / instante
enterro / berro
Embora haja uma preocupação com a mensagem, afinal, o que desejava comunicar (a saudade, o desejo, a memória), conseguiu. Acredito que o texto precisaria de um melhor arranjo. 
Não sei se a escolha das palavras, a disposição delas, pois em alguns momentos, o ritmo não ficou fluente.
Poetisa, gostei da mensagem  (conteúdo) contudo, a forma, não me agradou muito.  
um abraço
Margot Mary

Dor Antiga
 
De Maria Limeira
 
Análise: Dira Vieira
 
O texto de  Maria Limeira é carregado de lembranças que levam o leitor a sentir a mesma dor que a autora, percorrendo os meus pensamentos que ela, como se tivesse sendo levado 
pela mão para sabê-los. Tem conteúdo forte, expressivo como tudo o que ela faz, falando de dentro de si, expondo suas dores nem sempre tão solitárias, mas como expressão de quem 
vive os dias com uma fome de viver superior aos outros seres vivos. 
 
Maria é excelente prosadora. E particularmente, tenho muita admiração por sua prosa que considero de uma poeticidade surpreendente. Mas não gostei desse texto em forma de poema. 
Senti como se a autora estivesse forçando uma sincronicidade em seus versos, através de rimas que soaram desarmoniosas aos ouvidos, quebrando o tom, e suavidade de seu conteúdo 
carregado de profundidade. Há textos melhores que esse, quando Maria parece não se preocupar com a forma e com a necessidade de combinar linha com linha.
 
Ele possui frases carregadas de intimidade, mas que se quebram quando as rimas as remete a outras linhas.
 
Desse trabalho eu não gostei em Maria Limeira. 
 
Dira Vieira 
 


- Postado por: Oficina às 15h19
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Mais textos e mais análises, nossa Oficina não pára.

DOR ANTIGA
Maria José Limeira
 
A casa nosso abrigo foi, um dia,
na cama que gemia entre lençóis.
O quarto era noite e nos cobria.
O sono apascentava nossa voz.
A réstia nos beijava, era bruma.
O vento nos levava, era mar.
Areia nos deitava, era espuma.
Canção que nos tocava era luar.
 
A casa hoje-ruína tão sombria.
Da cama se esvaiu último pó.
A noite é tão triste e meio-vazia.
Do sono só guardei o restar-só.
O vento é acorde dissonante.
A sombra é passado onde me enterro.
O quarto, fria tumba sobre o instante
de mágoa, dor antiga, grito, berro.
(Do livro "Todos os seres")


- Postado por: Oficina às 15h17
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DE BRAÇOS ABERTOS
Um texto de Lucilene Machado
(Análise crítica)
 Maria José Limeira
 A escritora Lucilene Machado é uma boa proseadora. Conheço seus textos de velhos Carnavais.
Sua crônica "De braços abertos" é um exemplo do que Lucilene é capaz. Seus escritos são ternurinhas e bem femininos.
Ela é incapaz de um gesto brusco que espante os pássaros e choque alguém.
Prefere navegar em águas mansas, embora com firmeza. Interessante neste texto é a comparação que a autora faz entre o espantalho
no campo e as pessoas reais abrindo os braços em sinal de boa acolhida e de alegria na recepção.
Outro ponto que capto no texto é o tom memorialista, enfocando o passado em relação ao presente.
Observa-se, também, que a autora é uma pessoa sofrida (ninguém pode escrever sobre o sofrimento sem ter passado por ele), tentando justificar mágoas e procurando uma solução para o desencanto e as feridas que o relacionamento
humano provoca. Embora reconheça o mérito do texto como obra literária, discordo da "esperança" que a autora usa como lema para salvar o relacionamento humano.
Acho muito mais viável e realístico os versos de Augusto dos Anjos, "a mão que afaga é a mesma que apedreja", "o beijo, amigo, é a véspera do escarro",
etc., etc. 
A História da raça humana está cheia de casos de pessoas que usam outras para subir na vida, jogando-as fora, depois, como peças descartáveis.
"Solidão, fim de quem ama" - já dizia um velho amigo nosso chamado Vinícius de Moraes, de belíssima memória.
É um texto triste, o texto "De braços abertos", de Lucilene Machado, segundo é possível ver nas entrelinhas...
(Maria José Limeira é escritora e doce jornalista democrática de João Pessoa-PB).
DE BRAÇOS ABERTOS
Um texto de Lucilene Machado

Dira Vieira

Interessante a Maria nomear Lucilene de "ternurinha" porque na verdade ela o é. Sua prosa, tem um lirismo e uma poeticidade saltando aos olhos nas linhas que percorremos como se caminhássemos as ruas dos seus sentimentos e do seu coração.

Lucilene fala do universo feminino como quem fala de si mesma, mas como porta-voz da solidão de mulheres que guardam em si a poesia do dia a dia e dos afazeres comuns desse universo, sem cair no lugar comum e nas frases feitas que geralmente ocorrem quando falamos de nós dessa forma, intimista, como se estivessemos na frente do espelho.

Lucilene fala, através de sua prosa, da mulher e dessa relação com o mundo, com os seres e com os homens que nos rodeiam.

Esse texto não foge à regra. Mesmo que a prosa de Lucilene não seja estanque, e nem  previsível, ela sempre nos surpreende,mesmo quando fala o que nós já estamos cansados de saber.

Nessa crônica, ela fala da memória de uma criança, a criança nela que dela depende a si mesma a fim de solidificar o seus sonho de mulher.

A mitificação do homem traduzido da sabedoria da avó, é uma bela imagem poética. Perfeita a imagem que ela faz do homem e do espantalho, tem algo de sabedoria infantil e de mulher que ama, amou, ou tem o amor instalado no peito como marca. Lucilene quando fala do universo feminino é como se espalhasse cheiros e cores, numa sinfônica poeticidade harmoniosa.

Do meio para o fim, ela quase que foge um pouco, quando vai discorrer sobre os homens, mas logo, logo retoma ao texto, toma as rédeas das palavras que escapam aos seus dedos e recomeça a dizer quem manda no texto, sua sabedoria, sua alma poética, e principalmente, sua alma de mulher, menina, criança que saber ver no espantalho, um homem espiritualizado e com vida.  Finalmente, Lucilene termina a sua belíssima crônica, com

"... continuarei a conversar com espantalhos e a acreditar nos homens".

fechando com chave de ouro o texto, mas deixando em nós a porta aberta para continuarmos imaginando os homens, com a alma de mulher e de menina e dando graças a Deus por eles existirem.

Dira Vieira



- Postado por: Oficina às 15h13
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Análises de Oficina

De braços abertos

Lucilene Machado

Quando eu era criança achava todos os domingos alegres.

Talvez o fato não se deve à infância, mas aos hábitos comuns de uma cidade pequena.
Almoço na casa da avó era coisa sagrada. Comia salada de agrião com guardanapo no pescoço.                                    
Aqueles talos enormes esbarrando no nariz, vinagre penetrando nos olhos... agrião apanhado na horta                                     sem agrotóxicos.

E eu nem sabia da existência dessa palavra esdrúxula. Sabia que havia um espantalho de                                                braços abertos cuidando das verduras. Para mim era um santo como aqueles das igrejas.                                                   Todos os homens com braços abertos eram santos.
E minha avó sabia construir santos. Devia se inspirar em meu avô que abria os braços para que eu corresse a seu encontro. E eu morria de medo que um dia ele se petrificasse numa estátua de cartão-postal. Deus amava os homens bons e um dia viria buscá-los para si. Homens bons eram transformados em anjos e ajudavam Deus a cuidar do mundo. O espantalho era um anjo de Deus e devia dormir no esquecimento de alguma menina grande. Era esse um dos argumentos que eu usava para conversar com aquele  boneco de pano. Também lhe oferecia teorias, explicações e revelações surpreendentes sobre a parte feminina. Transferia para ele a lealdade dos homens que nem sempre foram tão leais assim.

Mas é tolice lamentar essa realidade de homens não leais. Não se pode fechar o coração em razão                                          de uma minoria. Ou seria maioria? Não posso dizer ao certo, sei apenas que os homens de braços                                       
abertos me salvaram de um coração de gelo. E continuam salvando. Eles existem e estão bem aí, embaixo                             do nosso nariz. Basta reparar. Sei, às vezes é difícil essa
percepção porque eles assumem formas inesperadas, infantis e até misteriosas.                                                                     E não estamos acostumadas a isso. Vemos a fachada, se ela não agrada desistimos de                                               descobrir o que vai dentro. É trabalhoso conhecer o homem que está dentro do homem. Até porque foram muitas as vezes que descemos à profundeza e não encontramos nada além de pura escuridão.

Não é necessário mais que uma frustração para que a mulher radicalize e torne-se negligente na arte de procurar pistas. Mas como a vida não nos deixa de instigar, lá vamos nós correndo léguas a procura de uma pista em meio das trevas. Seguimos o primeiro indício de caminho. Pode ser um ruflar de asas ou um fio de luz. E, de repente, estamos diante de uma
grande floresta. Árvores com raízes profundas. Espécies que não se deixam levar por qualquer vento. Uma floresta onde se encontra e se perde toda a sabedoria do mundo. Tudo depende da nossa capacidade de percepção. Não convém arriscar?

Hoje quando vi um espantalho numa horta vizinha, não pude deixar de ficar contente.

O museu de pano da memória trouxe à tona a imagem de homens poderosos.

Homens de coração limpo e braços abertos. Homens feitos à imagem de Deus e que,

muitas vezes, se deixaram crucificar por amor. Poesia? Esses versos vão anoitecer comigo.

Versos que eu sei de cor.

Também sei de cor tantos nomes, tantas lutas... e ainda, por muito tempo,

continuarei a conversar com espantalhos e a acreditar nos homens.



- Postado por: Oficina às 15h05
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