
A CRÍTICA
Lidar com opiniões diversas, com vaidades impressas, com reverberações alheias à compreensão de tudo. Eis que devemos ouvir, sem anêmonas nos tímpanos, ver sem carapaças no olhar... E debaixo de toda a nossa nudez exposta, começar um rito por onde a imaginação segue o pêndulo, o ínfimo desejo cortado na epiderme de um estreito dorso...
A crítica é sempre algum tipo de endosso.
(Lau Siqueira)
http://lausiqueira.blogger.com.br/
Qualquer semelhança com o Severino Paiva, Presidente da Câmara Municipal de João Pessoa, terá sido mera coincidência. Saludos. Maria José Limeira.
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PENSAMENTO
Ricardo Pisoler
Haverá um dia em que todos voltaremos a ser felizes...
Será o dia em que as rosinhas serão apenas flores,
garotinhos apenas criancinhas, genuínos apenas coisas verdadeiras.
Martas voltarão a ser bichinhos de pele felpuda,
e serra apenas um acidente geográfico ou uma ferramenta.
Genro apenas o marido da filha, neves apenas flocos congelados de água
e lula um molusco melequento marinho.
Ah! ... e Severino apenas o porteiro do prédio.
Bom dia a todos.
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Fonte:
Lista Oficina Literária do Yahoogrupos
oficina_literaria-subscribe@yahoogrupos.com.br
POEMÓIDE XIX
Um texto de João Andrade
(Análise crítica)
Maria José Limeira
O autor João Andrade, em seu “Poemóide XIX”, mantém as mesmas características de sua obra, notadamente no que se refere à “Série Poemóides”: concisão, desenvoltura,
simplicidade, etc.
Neste texto, uma palavra puxa a outra, formando uma espécie de trem em movimento, o que o torna mais interessante.
É um texto irônico e bem-humorado.
Não arredonda, no final. Abre-se.
Sou suspeita para falar deste autor, do qual sou amiga e admiradora.
Só posso dizer isto sobre o texto: - Gostei muito!
(Maria José Limeira é escritora e doce jornalista democrática de João Pessoa-PB).
Análise: Rubens da Cunha
João, este teu poema se ampara totalmente no ritmo e no som, nas rimas sempre no mesmo lugar, na semelhança
entre as palavras, nisso se constitui a originalidade do poema, portanto acredito que a quarta estrofe, com
este ‘extase / orgasmadas’ destoa totalmente do projeto do poema, e essa diferença não tem uma função
específica, tipo terminar o poema, ou ressaltar uma idéia fundamental ao texto. Está lá, no meio, mas não
acompanha a ‘batida’ das outras estrofes. O poema é interessante, sonoro, propõe uma série de leituras,
remete aquela letra do Arnaldo Antunes, gravada pelo Caetano e Gil: “as coisas não tem paz”. Mas acho que
para ficar mais ‘redondo’, ou 'concreto' você precisa resolver esta diferença sonora na quarta estrofe.
É isso
Abraços
Rubens
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Poemóide XIX de João Andrade
Mulheres nuas / Andorinhas / Tumores / Cadelas / Ereção / Mênstruas. Troco essas preciosidades por todas as "coisas" desse poema.
João, me desculpe, mas não consigo analisar tanta "coisa".
Te+ (Marcelino Costa)
Marcelino, gente boa. Você foi tão prolixo ao analisar meu texto "Desobediência civil"(eu agradeço a lucidez
de sua análise). Mas, nesta "crítica" ao Poemóide de João Andrade, foi tão econômico, incompreensível e
lacônico, que, pelo menos para mim, a coisa não ficou clara. Poderia ser mais explícito? Saludos y gracias.
Maria José Limeira.
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Não ligue Maria, o problema é essa minha implicância com essa palavra, não ligue. O João também não deve dar bola pra isso.
Marcelino Costa
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Poemóide XIX
João Andrade
O poema do João Andrade é um exercício da linguagem. Exercício da sonoridade e do ritmo.
O poeta rima e brinca com as palavras a fim de extrair delas mais que sons, melodias entrecortadas como um músico experimenta sons que tira de seus instrumentos.
Não vi aqui alguns sentidos, senão, a brincadeira do artesão com os seus instrumentos, a palavra. João brinca, experimenta, sem a intenção de produzir o conteúdo, mas jogar as palavras umas contras as outras na
intenção do sentido. Brinca com o uso da anásfora e fica só nisso.
Como exercício ritmico, é interessante. Para mim, enquanto leitora, tanto faz. É só um texto.
Dira Vieira
Dira, Marcelino, Rubens.
Não me sinto à vontade em análisar meus textos. Penso que não tenho o distanciamento necessário para ser impacial, limitar-me-ei a esclarecer alguns termos.
A palavra “coisas” é usada neste texto não como um termo vicário, mas na acepção de fenômenos que subsistem fora de minha representação. Pode ser entendido ainda como coisa em si — aquilo que subsiste em
si mesmo sem supor outra coisa.
Na Escolástica o conceito transcendental “coisa” é um dos cinco modos de ser e seu modo de ser corresponde, em geral, ao de todo ente.
Por vezes, as coisas são consideradas como entidades individuais e, particularmente, as existências materiais individuais. Estas definições apresentam certas dificuldades, ou de restrição, quando se identifica coisa com coisa material, ou de imprecisão quando assimilada ao conceito de identidade individual. Uma definição melhor, mas ainda com dificuldades, é a que estabelece a vinculação do conceito de coisa com o de substância.
Kant chamou coisa em si às realidades que não podem ser conhecidas pela experiência possível, isto é, que transcendem as possibilidades do conhecimento. As coisas em si podem ser pensadas, mas não conhecidas.
Realmente, pensar um conceito é totalmente distinto de conferir ao mesmo validade objetiva.
São nestas acepções que a palavra “coisas” é usada no meu texto.
Concordo com Rubens que a quarta estrofe destoa no ritmo, mas as palavras "êxtase" e o neologismo "orgasmada" foram usadas em função do conteúdo. Mesmo assim, orgasmada vai rimar com coitada na última
estrofe.
Em relação à forma, creio que o texto foi quase todo desvendado.
Poemóide XIX
João Andrade
As coisas causam pausas,
quase sempre náuseas,
menopausas.
As coisas causam causas,
quase sempre pousam,
repousam.
As coisas causam quases,
quase sempre morto,
aborto.
As coisas causam coisas,
quase sempre em êxtase,
orgasmadas.
As coisas causam cio,
quase sempre coitos,
coitadas.
ÀS PORTAS DA NOITE
Um livro de Dalva Lynch
(Análise crítica)
Maria José Limeira
Conheço Dalva Lynch desde 1999, quando compartilhamos textos e vivências em listas de
discussão na Internet.
Pareceu-me, desde então, uma pessoa preocupada com ética e bom relacionamento (qualidade rara, hoje em dia, tanto no plano real quanto no virtual).
Sobretudo, descobri nessa autora o cuidado em divulgar textos amadurecidos e trabalhados, sem a pressa dos incautos navegantes e poetas de qualidade discutível que, antes publicam, para depois ver como fica.
Nota-se, portanto, logo à primeira vista, que não se trata de autora estreante, ou de aventureira arriscando jogadas mirabolantes em roletas russas de resultado duvidoso.
Trata-se, sobretudo, de uma escritora responsável, criteriosa, preocupada em construir uma obra.
É um primor a obra dessa autora, onde os textos se perfilam com elegância e muita beleza, aliando técnica e conteúdo à dignidade que falta, principalmente, à maioria de poetas que militam em listas de discussão na Internet.
Não é surpresa, portanto, encontrar agora no livro "Às portas da noite", de Dalva Lynch real, a autora que estávamos acostumadas a ver no virtual.
Neste livro, ela se apresenta como realmente é e, para compreendê-la, é preciso entender de paz, de amor, do divino que há em nós, e da carne que manipula espiritualidade com a mesma desenvoltura com que convive com o desejo.
O tema principal é o Amor, em suas derivações inquietantes, misturando eterno, in-temporalidade, momento presente, o espírito e a matéria se completando.
Não são idéias que se abrem à primeira leitura.
Exigem reflexão.
Refinamento. Esta é a única palavra possível para definir os textos de Dalva Lynch, cuja linguagem transforma vocábulos simples em conceitos de outros significados, o que em Literatura se chama "conotação".
Nada nos textos da autora pode ser desprezado como "supérfluo", pois as palavras têm sentidos ocultos a serem desvendados.
É impossível falar de Dalva Lynch sem citar a leveza e o movimento que ela empresta aos seus textos.
Embora em seus poemas use o "eu" como ponto de partida e porto de chegada, a autora supera a limitação em largos vôos, que levam sua Poesia à universalidade.
Este o exemplo, num trecho de poema:
Beija-me com a paixão da tua boca
que quero te conhecer.
Não, não me beijes com teu desejo:
beija-me com teu ser.
("Pedido")
A seguir, um dos poemas de Dalva Lynch que mais
gostei, em seu livro "Às portas da noite":
SOMBRAS II
Dalva Agne Lynch
Não somos mais apenas sombras
Amado
do que pensamos.
O sermos juntos foi real
e como tal
se fez prazer... e deixou marcas.
Contudo, do que antes sonhamos ser
Amado
temos ainda o não sonhado.
pedaços esgarçados - espirais
e como tais
apenas sombras...
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Fonte:
LYNCH, Dalva Agne. "Às portas da noite". Blocos Editora. Rio de Janeiro. Ano 2003. 50 págs.
A DIVISÃO DAS CLASSES
Um texto de Ricardo Pisoler
(Análise crítica)
Maria José Limeira
Este texto “A divisão das classes”, de Ricardo Pisoler, embora esteja alinhado como Poema, é Prosa.
Uma Prosa cheia de requififes, salamaleques e reentrâncias, tipo conversa miolo de pote, ou conversa de velho, que vai, vai, vai, segue adiante e, de repente, pára, e volta atrás, começando tudo de novo.
A técnica é a mesma do “fogaréu”, que reúne várias pessoas ao redor das chamas, numa clareira, contando histórias sem fim. E o papo poderá se estender noite a dentro, indefinidamente, até não mais poder.
Este texto é bem interessante, tanto em forma como em conteúdo.
Começa com o narrador-observador imparcial refletindo sobre artes & artistas. A intervenção final do eu é uma grata surpresa.
(Maria José Limeira é escritora e doce jornalista democrática de João Pessoa-PB).
A divisão das classes (r.pisoler)
Como disse Rimbaud:
"Fere-me algum louco em mim"
Há os que são artistas, e os que se acham.
Há os que não são, e os que se acham.
O artista, em geral, é mais triste,
A arte contida em si quase o esmaga.
Cresce dentro da mente e extravasa,
Aprisionando os demais sentimentos
Na clausura do não ser.
Já os que se acham são mais felizes,
Não conseguem observar as incoerências
Devido à fina película da bolha de sabão
Onde estão contidos. Pequenina e frágil.
Com isso a vida se torna mais simples,
E toda a criação ensejada óbvia demais.
Os que não são, são felizes e tristes.
A preocupação com o mundo é carente
De todo tipo de explicação.
Com isso a alternância das satisfações
Vem corresponder aos princípios básicos
Da existência: Crescer e multiplicar.
Costumam adorar os artistas, e, de acordo
Com o grau de instrução, percebem ou não
Os que se acham.
Já os que se acham que não são
Não são felizes e nem tristes,
Não são e são ao mesmo tempo,
É, dentre todos, o de mais difícil definição,
Porém a de definição mais clara.
São as sombras paradas na estrada,
Restos de pastagens, cores do nada.
Uns acreditam que são anjos,
Outros acreditam que são fadas.
Para mim, não passam de
Poemas sem palavras.
Um texto de Ricardo Pisoler
(Análise crítica)
Maria José Limeira
“Saliências da pedra”, de Ricardo Pisoler, é um texto anárquico, tipo “manifesto surrealista”.
Nem mesmo André Breton se arriscaria a a escrever um discurso assim, onde o único ponto de ligação seria o dizer por dizer, ao correr da pena, sem preocupação de dar-lhe unidade e coesão.
As idéias são desencontradas, soltas no ar, com multiplicidade de clichês.
Até mesmo na forma, este texto não se define.
Chegou-me em Prosa.
Mas, é tão claro o uso de metáforas do primeiro ao quinto, que pode ser lido como Poesia.
Tumulto, confusão e descarrilhamento parecem propositais, tornando bem interessante este texto lindo, que gostei muito, porque se distancia de todas as obras que eu conhecera antes, inclusive assinadas pelo próprio Pisoler.
Outro detalhe curioso: cada frase tem vida própria, existindo independente do contexto, como se fora única, sem nada a ver com a geléia geral.
Por exemplo:
Que relação existiria entre o “músculo em contrações involuntárias” e a “filosofia de buteco que é para beber mais”?
E o que tem com isso Getúlio, os dois Fernandos juntos, e Lula principalmente?
Seria impossível interpretar o texto à luz do bom senso.
Trata-se de um discurso não-convencional, nada coerente, e muito, muito inquietante!
(Maria José Limeira é escritora e doce jornalista democrática de João Pessoa-PB).
saliências da pedra (r.pisoler)
Não mais distendo meu músculo em contrações involuntárias,
filosofia de buteco é para beber mais, e não para se ter razão.
Qualquer perna que me puxa me puxa, mas não me puxa a perna.
Cansei de doer por dor que não me leva a um sofrimento capital.
Hoje sou só alegria, mesmo que aquela que desfaz quando amanheço.
Não me conheço, e isso é tão maravilhoso como nascer a cada dia.
Repito versos dos magníficos, como se fossem nunca ditos.
Me ajoelho para o leste, como se ali nascesse o crucifixo.
Acredito que todos envelhecem e perdem a alma, e ganham uma cara.
A cara é o espelho da medalha, ostentada no paletó de madeira.
Grandes homens não tem febre, são a própria que padecem.
Grande foi Getúlio, que desistiu de se transformar em gravata.
Fernando e Lula são hastes de bandeiras inversas, da máquina.
Que costura a solidão do sonhador na realidade crua, que mata.
Pensadores não tem seguidores, têm memórias em livros esquecidos.
Lembrados por vezes por outros pensadores, que mais e mais se iludem.
Chegaremos ao fim da era terrestre procurando um chip divino.
Que os marcianos perderam antes da explosão, luz na cratera.
No próximo planeta habitado, dinossauros robôs e bebês das cavernas.
Encontrarão medidas necessárias de sobrevivência, por longas décadas.
Repetirão poesias, decifrarão marcas na pedra.
E antes do meio-dia, darão o mesmo valor dado por nós,
a um mínimo de atmosfera.
EU ELOGIO, TU ELOGIAS, ELE ELOGIA
Maria José Limeira
Enquanto estive em redação de jornal, briguei.
Fazia o tipo de jornalismo-guerrilha, enfrentando tudo e todos.
Num tempo em que era proibido contestar.
Onde havia polêmica e tumulto, eu estava no meio.
Nesse tempo, meus livros de cabeceira eram os Códigos Civil e Penal Brasileiros, onde estavam meus limites para enfrentar as inúmeras ações judiciais impetradas contra mim, por conta de minhas palavras ferinas.
As pessoas queriam me ver na cadeia, a todo custo.
Quando me afastei do jornalismo, estava coberta de feridas. Algumas, incuráveis.
Depois que dei minha humilde contribuição à história das lutas sociais no País, recolhi-me à minha insignificância. Fui cuidar da minha família e dos meus filhos pequenos, que precisavam do meu amparo, escrever literatura ficcional, e minhas memórias, e fazer Poesia.
Jurei a mim mesma não contestar mais nada, nem ninguém.
Mas, os jovens autores continuaram me procurando.
Queriam minha opinião sobre seus escritos.
Eram textos simplórios, na maioria desabafos, que eles chamavam de poemas.
Partindo do principio de que todo texto é bom, ainda que, em alguns detalhes, não preste, eu distribuía elogios a torto e a direito, sem exceção.
Não os publicava diretamente na imprensa.
Entregava-os aos autores.
Eles que fizessem o uso que quisessem de minhas opiniões.
Geralmente, divulgavam meus elogios nos jornais locais.
Estava eu na maior tranqüilidade agindo assim, em paz com o mundo e comigo mesma, feliz da vida, quando dois fatos vieram atrapalhar meu torpor pastoral.
O primeiro fato.
Um poeta bissexto enviou-me seu primeiro livro, que escrevera com todo amor, dedicando-o a seu velho pai.
Eram textos abaixo da crítica.
Garatujas!
Queria que eu escrevesse o prefácio.
Fiquei em situação difícil.
Sem poder elogiar, e incapaz de dizer o que pensava, para não magoar o amigo, resolvi silenciar.
Passaram-se dois anos, após o que, recebi telefonema.
Era o dito cujo, procurando notícias do prefácio do seu livro.
Encostada contra a parede, não havia saída.
Disse-lhe que não tivera tempo de escrevê-lo.
Do outro lado da linha, uma voz irritada desencavou todos os palavrões do Aurélio contra mim, extensivos à minha pobre mãe já falecida.
Agüentei tudo calada. Conhecia a peça. Sabia de que ele era capaz.
Devolvi os originais através de portador. Sem o prefácio.
Alguns anos depois, o autor faleceu. De coma alcoólica. Sem publicar o livro.
O segundo fato acontecido.
Um amigo mandou-me livro de sua autoria, recém-publicado. Um romance, contando a saga de sua própria família.
Éramos amigos de muitos anos.
Enfrentáramos juntos os percalços da vida, comungando os mesmos ideais e militando no mesmo partido político.
Sua obra foi uma grata surpresa para mim. Eu desconhecia que ele era escritor.
Escrevi texto bonito, dando minha opinião sobre o livro. Mandei o escrito ao amigo através de portador.
O portador, num rasgo de generosidade, publicou meu texto no jornal, sem passar pelo crivo do autor.
O livro era bom, bem escrito. Teci-lhe muitos elogios.
Mas, no meio do foguetório, fiz uns reparos que não ocuparam mais de uma linha (apenas uma linha!), que se perdeu no todo.
Alguns dias depois, o autor me telefonou e disse:
-Por que a senhora está me perseguindo? De hoje em diante, não fale mais comigo!
Disse, e desligou, sem me dar tempo de responder.
Hoje, quando nos encontramos por acaso, na cidade, ele muda de calçada.
Vira o rosto para o outro lado.
Faz que não me vê.
Nosso passado lindo, de lutas, amizade e companheirismo, foi enterrado, por conta daquela única frase que escrevi de reparos a um texto.
(Do livro “Crônicas do amanhecer”).
Maria José Limeira é escritora e doce jornalista democrática de João Pessoa-PB.
(Análise crítica)
Maria José Limeira
Este texto lindo, “Espelho”, de Maurício Moretti, esconde um mistério insondável que a criatura humana mantém em diálogo consigo mesma, lá dentro de seu ser, que ora se retrai ora se expõe, mas nunca se revela.
O autor parte de um tema comum (o espelho), já explorado por vários outros, em todos os tempos.
Mas, neste momento, o poeta Moretti alcança uma das melhores páginas de seu livro “Vozes da consciência”, recentemente publicado, onde o texto está inserido, com uma imagem que é, ao mesmo tempo, danação, sofrimento e verdade.
Pouco importa o “eu” frágil como proposta que utiliza para expressar um sentimento universal, onde a relação de tempo é mais angústia do que constatação.
Em poucos poetas vi um “eu” tão vasto assim, que começa em personagem individual, particular, e se estende até o infinito de humanidade que o autor expõe com tanta emoção e sentimento.
É um texto sóbrio, sem redundâncias, num poema que vale por toda a obra.
Gostei muito do texto, e do livro inteiro.
(Maria José Limeira é escritora e doce jornalista democrática de João Pessoa-PB).
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Maurício Moretti
Espelho, você me reflete,
Desde a sombra de meu medo
Às dores dos meus momentos,
E como dói o seu silêncio!
Espelho, meu único amigo,
Não me pergunta nada
Neste vazio de meu quarto:
O mundo onde o escondo.
Só você tem a coragem de mostrar
A barba que cresce,
As rugas que aparecem
E o tempo que corre.
Nestas horas de tristezas,
Não esconde a minha fisionomia,
Pois é impossível esconder
A mim mesmo.
DAS RAZÕES DE TODAS AS MARIAS
Um texto de Dira Vieira
(Análise crítica)
Maria José Limeira
Não fosse a indicação de que o texto “Das razões de todas as Marias”, de Dira Vieira, fora escrito em resposta a um outro de Edu Funicelli, eu diria que esta prosa linda parece-me tão real como se, de fato, tivesse acontecido, tal a marca de verdade que a cerca...
É um misto de crônica e conto.
Descreve cenário real.
Conta uma bonita história, e faz reflexão sobre os grilhões que nos prendem ao cotidiano.
A linguagem é escorrida, coloquial.
Narra o fugaz dos encontros humanos sob o ponto de vista feminino.
Realmente, um texto que só as mulheres entendem.
É, Dira... as Marias têm razões que todos desconhecem...
(Maria José Limeira é escritora e doce jornalista democrática de João Pessoa-PB).
DAS RAZÕES DE TODAS AS MARIAS
Dira Vieira
Saí de casa sem pretensão de voltar. Uma confusão. Um dia frio, como todos os outros dias frios que se arrastavam diante de mim. Arrumei a casa, coloquei uma roupa qualquer. Eu não sou alguém de grandes dotes
físicos. Sou apenas mais uma Maria entre tantas e tantas outras Marias, com um monte de sonhos dentro da cabeça impulsionados pelos ventos das vontades insatisfeitas. Não sou perfeita.
Peguei o primeiro ônibus que passou na rua. Nem sei onde daria. Desci no Shopping onde as pessoas andavam de um lado para o outro como se a vida fosse uma passarela de vaidades. Quanta solidão. Quanta vontade
afogueada no peito. Na praça da alimentação, enquanto pegava meu milk shake de morango e um McCheddar, vi-o sentado numa mesa comendo a mesma coisa que eu. Dentro de mim, um mundo de falta de intenções se misturavam á beleza que vi do seu olhar. Não era um homem de grandes atributos, como eu. Mas tinha um brilho no olhar que só a sensibilidade dos dias frios e noites insones poderiam perceber.
Pedi para sentar, dissemos algumas frases simpáticas. Expliquei-lhe da minha incapacidade de comer sozinha e rimos juntos. Foi uma eternidade o momento em que olhávamos um ao outro. Ele Edu, eu, Maria, não a dona
Maria. A Maria do mundo, sem passado, sem futuro. O sorriso aberto na frente dele. Ele me mirava a alma, eu lhe percebia o espírito.
Parece que o mundo nos observava atônito. Nós rimos, conversamos tantas coisas. Ele ria das minhas interpretações, mas parecia ler os meus intervalos de silêncio. Quando ficava séria, ele penetrava meu pensamento, e parecia advinhar que eu caminhava por desertos sinistros. Ninguém poderia ser alegre assim, impunemente. Só sei que olhar para ele, era como ter nascido para ele.
Foram momentos ímpares. Até quando ouvimos o guarda nos avisar que o shopping fecharia e teríamos que sair dali. Foi quando percebemos que sempre tivemos um ao outro, e que o mundo, era apenas um detalhe naquele
cenário.
Edu levantou e me deu um abraço. Um abraço de quem se conhecia há tempos. Ficamos os dois parados, nus e aflitos ante a idéia de irmos embora.
Partimos para lados contrários. Cada um em seu silêncio de vida. Nunca mais eu seria Maria. Nunca mais ele seria ele. Levava dele suas mãos macias, seu sorriso solto, seu hálito, sua alma tatuada na minha pele. De
mim, ele levou tudo. Porque agora eu seria apenas mais uma Maria, como todas as outras, com a alma aprisionada em algum lugar, onde Edu estivesse.
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Em resposta a um texto do Edu no blog: http://rascunhoblog.weblogger.terra.com.br
CYBERESPAÇO – INTERESSE DE TODOS
MIAMI, EEUU (Librusa) – O escritor peruano Isaac Goldemberg disse que a Internet é uma ferramenta útil “porque oferece muitas possibilidades de comunicação”, mas advertiu que não deixa de ser lamentável que também permita “uma produção excessiva de textos” de criação espontânea.
Goldemberg, autor de “El nombre Del padre” e um dos escritores latino-americanos mais destacados nos Estados Unidos, fez a afirmação em entrevista publicada na página web do Fórum Híbrido Literário
(http://www.geocities.com/hibrido_literario/index.html)
“O ciberespaço me parece uma ferramenta útil porque oferece muitas possibilidades de
comunicação e acesso à informação. Sem sombra de dúvida, porém, e isto é lamentável, também permite uma produção excessiva de textos baseada na criação espontânea”, disse Goldemberg à sua entrevistadora, Taty Hernández.
“Este é o tipo de literatura que o ciberespaço não deve fomentar porque a criação literária não é só catarse”, acrescentou o escritor.
Advertiu, ainda, que “às vezes, a impressão que se tem é de que os espaços cibernéticos estão povoados, em sua maioria, por escritores aficcionados, que carecem de disciplina e dos conhecimentos necessários para superar este nível. E é por isso que a literatura que aparece no ciberespaço corre o risco de perder credibilidade”.
Nascido no Peru, em 1945, Isaac Goldemberg é autor de títulos como “Hombre de paso/Just Passing Through”, “La vida al contado”, “Cuerpo Del amor y Lãs cuentas y los inventários”, “La vida a plazos de dom Jacob Lerner”, “Tiempo al tiempo”, y “Hotel América. Sua novela “El nombre del padre” foi lançada em dezembro de 2001, com o
selo Alfaguara.
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Reprodução autorizada por Librusa Corp. Copyright
CURTA-METRAGEM
Um texto de Maria Luiza G.S. Foz
(Análise crítica)
Maria José Limeira
Lugares-comuns: tédio de domingo; ver filmes na tv; ligar o videocassete, bocejar, e ficar no meio da casa sem ter o que fazer. Parece tudo muito simples. Mas não é, quando se trata de Poesia, e Poesia Verdadeira, como esta “Curta-metragem”, de Maria Luiza.
A autora transpõe para o texto um sentimento muito comum nos seres humanos, a Solidão, embora a palavra não apareça uma única vez no poema, sutilmente implícita nos títulos dos filmes que desfilam.
É um texto reflexão, e imaginemos que a autora seja cineasta, mais do que poetisa, e “com uma idéia na cabeça e uma câmera na mão”, vá criando seu próprio filme – este “Curta-metragem” que ela montou tão bem! – a partir de cineastas e filmes consagrados... (Pelo andar da carruagem, ela tem bom-gosto também como cinéfila). Não gostará deste texto quem não gostar de cinema...
Este texto é uma belíssima surpresa na internet. E estou pedindo autorização à autora para divulgá-lo em todas as listas do egroups onde milito, juntamente com esta minha opinião.
(Maria José Limeira é escritora e doce jornalista democrática de João Pessoa-PB)
CURTA-METRAGEM
Maria Luiza G.S. Foz
Sou a (nem tão)garota do adeus
saindo de um festim-diabólico tédio!-
de braços dados com o Woody Allen.
Penduro o sexo no varal,
mofado como os morangos silvstres;
mato os pássaros de rir
enquanto assim rasteja a humanidade.
Fecho a porta e sento e sinto
no silente absurdo do domingo,
que afinal a carruagem parou
em algum lugar do passado.
E que se desligue o vídeo.
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Fonte:
Comunidade “Poesia&Confidências“
www.orkut.com