
Exercício literário:
FOLHETINS DA GANDAIA
Maria José Limeira & Amigos
(Para Ademar Ribeiro)
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Meninas, abaixem a saia.
Meninos, fechem braguilha.
Aqui não temos gandaia.
Este lugar não é ilha.
Se querem soltar as frangas,
ou manchar o que era austero,
vão lá fora chupar mangas
com o coronel Ludugero!
(Maria José Limeira)
não me rodem a baiana
a mineira ou a paraíba
poeta gosta de samba
mas não navega à deriva
o meu verso amalucado
que não aceita cabresto
sacode os ombros e ri
do argumento canhestro
minhas letras pequeninas
têm nariz arrebitado
isso é amostra sem rima
do seu jeito libertário
(líria porto)
Não se trata de nariz,
nem de torto ou de canhestro,
mas de rima que condiz
com meu muso ou com meu estro.
Se minha letra é pequena,
se meu verso é chinfrim,
toda rima tem melena
e todo amor dói em mim.
Mas, se não quiserem acórdão,
nem ouvir minha canção,
não quero ver o que bordam,
e vou lhes dizer o cão!
(Maria José Limeira)
Meu cordel na corda bamba
Virou jangada perdida
Deriva em riba de mar
- Sacode
Feito boneco de Judas
Em sábado de aleluia
No poste daquela esquina
- Chacoalha
Ri de Deus em desacato
Ri com o povo na gandaia
Ri com o pombo que caga
Bem no boné do seu
- Guarda
Abraços a todos, em especial ao grande Ademar.
(Rogério Santos)
Todo Ademar é grande.
Já a líria é pequenina.
Sexo de homem é glande
que a toda mulher fascina.
Quem ri à toa é tonto.
Quem faz gandaia bagunça.
Sexo em pé está no ponto.
Sexo deitado furdunça!
(Maria José Limeira)
eu posso arrumar a rima
comprar banana em cacho
pedir que deites por cima
ou podes ficar por baixo
se tu preferes querido
esse viver simulado
não quero nenhum marido
menos ainda um capacho
a vida é boa é gostosa
a gente ri das fraquezas
quando "nóis" pode "nóis" goza
ou põe comida na mesa
(líria porto)
Pra gozar são mais quinhentos.
Para amar basta um aceno.
Os santos só prestam bentos
e cavalos comem feno.
Quem deita por cima manda.
em quem por debaixo fica.
Clarinete toca em banda
e todo homem tem pica.
Quem está vestido tem roupa.
O rei nu não manda em nada.
Rainha Maria, a Louca,
sem marido é mal-amada.
Este lugar virou zona.
Todo mundo na gandaia.
Os homens estão na lona.
Mulheres levantam a saia!
(Maria José Limeira)
Maria é uma mulhé-flô
Líria é uma flô-mulhé
O cheiro que tem o amô
Só sente quem Deus quisé
Quem verseja pela vida
Sem pretensão de dotô
Não renega perseguida
Quando a flô desabrochô
Eu prefiro ser Romeu
Num romance de segunda
Do que virar Prometeu
Com fagulha de fogo na bunda
( Rogerio Santos )
Quando verso é de má-fé,
a gente sente e vê bem.
Quando Romeu não me quer,
arranjo um sapo e Amém!
É melhor sapo barbudo
do que Romeu de araque.
Quando sofrer é agudo
dá o tiro, espera o baque.
(Maria José Limeira)
Estou aqui, no meu catre
num domingo assim pacato,
calado que nem um coco,
ouvindo de uns e de outros
rebeldias e maus-tratos.
Mas, quando soltar a franga,
que saia de baixo o "parnaso".
Verso com nariz de ponta,
ainda que belo, escorreito,
se transgride a ortografia,
sai da conta, dá desgosto,
depõe mal contra o poeta,
quer seja da bela Amina
ou da linda Líria Porto.
À paraibana ou à mineira,
à baiana ou à portuguesa,
poemas não são brincadeira.
O verso há de ser bem cuidado,
seguindo a norma, nos trinques,
sem truques nem arrebiques.
- Nem toda beleza põe beleza.
Versos minúsculos, chinfrins,
com perfis de lançadeira,
ou aloprados, com glande,
como os da grande Limeira
são coisa de mulher ruim:
ignoro-os, quanto crescem,
e que passem bem sem mim.
Fosse eu que os escrevesse,
brancos, lisos, metrificados,
por melhor que fosse a rima,
de uns versos tão delicados,
diriam: "Que bicha é essa?
"Botem o caçador na rua"
- Isso é coisa de "viado"!
Sentado à beira do mar,
lá onde um cordel naufraga,
sondo ventos e mistérios,
ouvindo o tombo das vagas.
-Que pombo é esse, Rogério,
que não vi, que não se vê,
que erra o alvo quando caga?
( Ademar Ribeiro )
Perdoai-me, oh bons Poetas.
Nobre Deus, alumiai-me.
Se eu andar por linhas retas,
inspirou-me o Santo Daime.
Se as retas forem tortas,
e eu me perder em procelas,
arreganhai vossas portas,
sem esquecer as janelas.
Mas, se está no meu destino
enfrentar crítico ferrenho,
desculpai-me o desatino,
e dai-me o que não tenho.
Diz ele ter pau insosso,
maior que sexo franzino.
Pra viver nesse alvoroço
é melhor tocar o sino.
Ele diz que pau é grosso.
Eu digo que não: -É fino!
Ele vive esse sobrosso,
desde o tempo de menino.
De sexo em sexo, vagueio.
De homem em homem, latejo.
De verso em verso, ponteio.
De boca em boca, um beijo!
(Maria José Limeira)
nessa manhã bonita
de azul tão infinito
já coloquei uma fita
no meu cabelo escorrido
fui à feira comprar doce
vou mandá-los pro ademar
se bom poeta não fosse
não viria versejar
a gente brinca escorrega
às vezes erra na rima
no entanto segue a regra
e dá a volta por cima
a minha letra é miúda
escrevo sem usar ponto
já plantei um pé de arruda
e peço a ti um desconto
a minha saia é curtinha
o meu traseiro redondo
porém não saio da linha
e nem de ti eu me escondo
(líria porto)
entra mosca e entra sapo.
Quem não dá o ladrão furta.
Quem chiar leva sopapo.
Quanto a redondo traseiro,
o que se ouve falar
é que senta no braseiro
e o resto não vou contar.
Verso triste, verso roto.
Rima de fantasia.
Todo safado é escroto.
Todo pinto novo pia.
A carta em letra miúda
o míope já não enxerga.
Toda mulher é queixuda,
que qualquer homem chamega.
(Maria José Limeira)
amina moça bonita
de versos tão delicados
se há gandaia divirta-se
caia no sapateado
as minhas letras meninas
têm cheiro de canela
sofrer não é minha sina
vou dançar a tarantela
todo dia toda hora
dou eu a volta por cima
se um amor não me ancora
um outro vem e me anima
tudo aqui é brincadeira
essa vida é uma canoa
despenco na cachoeira
inda assim a vida é boa
(líria porto)
Cair no sapateado
é se divertir sem dor.
É não ver o sol quadrado,
quando beijo tem sabor.
Apesar da inadimplência,
inda é possível sorrir:
corte de água é ciência,
e Telemar é porvir...
A volta que dou por cima
nem sempre é bem explicada.
Nem toda laranja é lima.
Na subida, uso escada.
(Maria José Limeira)
A gandaia perde a graça
cavalo comeu toda rama
faltou pandeiro da praça
o peixe perdeu a escama
pintou história de pinto
Maria José ficou braba
cuspiu bala feito naja.
O desafio perde o fio
a peleja, o seu enredo
a chama secou o azeite
o pavio perdeu a chama
a pinga perdeu a garrafa
a cachaça, o seu veneno
os versos caíram na lama.
(Ademar Ribeiro)
EM DEBATE:
“NÓS EM NÓS (SOMBRAS DO PASSADO)”,
DE ROGÉRIO VIANA
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Nós em nós (Sombras do passado)
Romper laços, atar outros,
atear fogos nas amarras do passado
amo,
amarás,
ato,
desato,
desafeto
irrompe pela janela sombras
de nós, nós que amamos
outros que não desatamos
num ato, no fato, naquela foto
nós aparecem amarrar afetos
que o verbo amar é vivo em
nós, nós todos incontidos
irromper novo laço, novo amor,
atuar com fogos em projetos do futuro
amei,
amou,
ato,
desatento,
desfecho
rompe nas sombras das janelas
tudo de nós, nós desesperados,
nós que desamamos de tanto amar
num fato, no ato, noutra foto
nós parecem amarrar efeitos
onde o imperfeito verbo amar
não vive, nós todos escondidos
rompa os nós do pretérito,
do mais que perfeito amor que passou
os nós de nós não devem amarrar
tudo o que se consumou, que foi fogo,
que foi paixão, que foi tesão e amainou-se
na promessa do eterno viver tudo de novo
tudo com outro alguém, ele em você,
entrelaçados num sorriso, num abraço,
num gozo, num sonho, numa premonição
virtual, encontro casual, novo casal.
hoje, nós juntos, firmes,
nós amarrados com perfume,
com o lume da plena lua,
com promessas plantadas,
com incenso, queijo, vinho,
beijo, desejo, entrega, branca cama
com seu macio lençol,
na benção, da reza,
veja bem, foi tudo isso obra viva,
sob inspiração de um santo, um
tal Antonio, mensageiro do
Senhor do Bonfim
nós que amamos em insólitos atos,
que desafiam incautos viventes
consumidos pelo descrédito do dito
pelo não dito, ou do que disse sem não dizer
eles não sabem o que dizem, nem entendem
nada do que aconteceu
nós em nós, não, nós amarrados
nós apertam, até matam, nós em tudo
na vida, na casa, na sua luta, na labuta
da diária dúvida, da dívida, da gratidão,
do dar, do dom, do que vai doar, vai doer,
vai amarrar novos nós em nós
nós em nós, corto todos, quero só,
somente quero, um nó em mim, outro
em você, não o nó do pequeno
círculo de dourado metal, desse que
do dedo sai, quando o amor se vai
eu quero apenas isso, um compromisso
que assumo, que me submeto, submisso,
que sumo no fogo se disso fosse preciso
eu assumo, de peito aberto, voz segura,
segura em minha mão na oração do
pater nostro, não aperte nenhum nó,
os nós em nós, nós de nós, não aperte
não complete num só ato, não, não...
mesmo no fato, na notícia, não, não...
não aperte este nó, não me condene
a não ser seu futuro, não registre no
seu negro caderninho de números
e sombras, meu nome já desbotado
não aperte este nó, nós em nós,
aquele que amarrava
meu coração ao seu e que, agora,
pode ser apenas uma vaga lembrança
que num vagar lento, pode deixar de ser o
hoje, o presente e meu coração sentir-se
um mero mimo, uma simples lembrança
de quem tinha toda a vida para você,
mas os nós em nós, você arremessou
ao fogo cruel do esquecimento e me
restou, no negro caderninho ser
apenas mais um louco troféu
Rogério Viana
NÓS EM NÓS (SOMBRAS DO PASSADO)
Um texto de Rogério Viana
(Análise crítica)
Maria José Limeira
Um texto-desabafo. Não mais que isto. É assim que penso sobre este “Nós em nós (Sombras do passado)”, de Rogério Viana.
Trata-se de um amontoado de palavras alinhadas como se fossem Poesia, mas é Prosa da braba, sem nenhum valor literário.
Conheço os textos curtos de Rogério Viana. Daí porque muito me admira encontrá-lo agora neste discurso extenso e óbvio.
Desde que iniciamos as atividades nesta Oficina Literária, sempre digo aos colegas de trabalho. Não somos definitivos. Nem radicais. Podemos mudar de opinião a qualquer momento sobre um texto. Pois a vida é feita de mudanças. Como também os Poetas não devem se restringir a ouvir as opiniões aqui expostas. Devem procurar outras praias, para saber se realmente seus textos valem a pena. O que é bom para nós pode não ser bom para outros, e vice-versa.
Espero que o Viana nos envie mais textos, para que possamos refletir sobre eles.
Rogério, li seu poema e achei interessante a tentativa de se debater os nós cegos da vida, os laços atados e desatados com os "nós" das uniões pela vida a fora.
Mas confesso que o poema apesar da boa idéia me causou a sensação de ser demasiadamente longo e por isso, pouco significativo.
Acho que vale muito a pena tentar dar uma enxugada nele.
O pisoler, sobre o poema do José Nunes, disse que era pano molhado e daria muita torcida e caldo.
No caso do seu texto, acho o contrário - cairia muito bem alguns panos secos e um balde, pois tenho certeza que ele após enxuto trará muito mais significado para quem lê.
Um grande abraço do seu xará,
Rogerio Santos
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Rogério e colegas,
Agradeço os comentários críticos sobre o texto que enviei.
Vou prestar mais atenção nos futuros trabalhos que escrever.
Abraços
Rogério Viana (que é filho de Elzeário SANTOS Viana)Texto: Nós em nós ( Sombras do passado)
Autor: Rogério Viana
Comentário de Ademar Ribeiro
O texto em análise, embora formalmente algo rebuscado, e de tantos nós pelas costas, é frouxo e prolixo, não acenando com nenhuma virtude literária importante, perdendo-se na ambigüidade de uma retórica enfadonha.
Não possui métrica, nem ritmo, nem autonomia de poema.
Para mim é prosa, naquela acepção mesmo "prosaica" do termo.
Que me desculpe o autor pela minha opinião nua e crua.
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Ademar,
Obrigado pelo comentário.
RogérioAcredito que o pessoal já falou o que eu achei deste texto. Achei ele longo, cansativo. Mas possui algumas reflexões interessantes. O poeta, mesmo que seja contrario aos meus princípios, poderia tirar algumas coisas que explicam o texto, deixá-lo com cara de poesia e para ser lido como poesia. Tem muito material neste texto, muito sentimento, não jogue
fora tudo o que nele contém. Não mexa no texto, se assim achar melhor, transforme-o em prosa. Eu achei mais suave e menos cansativo se lido em prosa.
Abraço no poeta.
(Hilton Júnior)
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Hilton,
Agradeço seu comentário. Observarei as dicas em próximos textos.
Rogério VianaO poema/texto de Rogério Viana me deixou a impressão de ser a verbalização do choro incontido de alguém que acabou ser deixado pelo ser amado...alguém que ainda não assimilou a perda da pessoa que amava (ou pensava amar), que está com o orgulho ferido, com raiva - melhor - ódio e quer gritar e repetir a quem quer que queira (ou não) ouvir, lamúrias e mais lamúrias de sua desilusão. É uma autêntica catarse posta a público e, como tal, merece apenas ser ouvida (ou lida) - porque quem assim está se sentindo não quer nem merece crítica - espera apenas um ou dois (ou dez, ou cem...) ombros amigos que ouçam (leiam) o que tem a dizer, seja o discurso sem ordem, sem sentido, esparramado ou espremido.
Por seu evidente estado de tristeza o autor tem minha solidariedade, lembrando que, aos nós que não conseguimos desatar na vida, devemos dar a mesma solução de Alexandre, o Grande, que, ao se deparar com famoso nó górdio, que ninguém jamais ousou tentar desatar, simplesmente o cortou à espada. Isso dito, ficamos na espera de novos trabalhos do autor.
(José Nunes)
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José Nunes,