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“OS INFORMAIS”,

UM TEXTO DE RUBENS DA CUNHA,

EM DEBATE:

.......................

 

Os informais

 

Rara manhã de sol. Às margens da BR-101, dezenas de homens esperam. São os chapas. Ficam lá, sentados, esperando que algum caminhoneiro precise de seus pés, mãos, músculos, para a carga ou descarga de mercadorias.

Um trabalho sem vínculos, sem contornos, apenas a execução fria e automática de uma atividade.

Estão quase sempre aos pares, fumando. Fazem barracos de lona, usam pedaços de madeira como assento. Pintam a palavra "chapa" em diversos formatos, o importante é ser visto. Um conseguiu um sofá velho e refestela-se nesse pequeno conforto. Estão munidos de esperança e paciência: ferramentas necessárias para um trabalho cuja sorte é um elemento primordial. É como se fossem fantasmas diurnos, formam com as cruzes fincadas na beira da rodovia, um retrato fiel da nossa nação em desordem.



- Postado por: Oficina às 21h12
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Os informais - Cont.

Tarde qualquer. A chuva volta ao seu habitat natural. Debaixo de uma marquise, molhado, um oriental dirige uma pergunta aos passantes:

"Tênis?". Alguém pára, quer saber quanto custa, o homem diz em uma língua estranha: "35". O suposto comprador segue seu itinerário. O vendedor (terá vindo da Coréia, China, Vietnã?) abaixa a cabeça, protege-se da chuva, talvez chore. Quanta solidão terá suportado desde a sua aldeia até esta paragem estranha que agora o acolhe? O que o fez vir vender tênis na Terra Brasilis? Naquele frágil corpo oriental todas as respostas são enigmáticas e belas. Ficarão para sempre cerradas no desandar calmo do vendedor estrangeiro.

 

Meio-dia. A chuva continua estável. No terminal de ônibus, vastidões esperam transporte. Seguram sombrinhas, guarda-chuvas, estão cansados, úmidos. Perambulando entre todos, uma velha vendedora de cocadas. Recusam sistematicamente a sua oferta. A menina se mostra interessada: o seu desejo foi logo amputado pela mãe: "Vai estragar o almoço!". A vendedora carrega seu cesto entre uma plataforma e outra. Não demonstra, mas tem a fome atravessada nos olhos.

- Postado por: Oficina às 21h08
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Os informais - Cont.

Outra manhã ainda. Entre nuvens espessas, umas manchas azuis que em breve serão derrotadas. No sinal, o malabarista com pretensões cômicas faz suas piruetas, finge o tropeço, o erro, finge o riso, corre rápido entre os carros, não recebeu nenhuma moeda, finge o agradecimento. No próximo sinal, o vendedor de flores oferece rosas vermelhas, a beleza natural fabricada. No próximo, uma jovem quer trocar R$ 1,00 por duas canetas. No próximo, o sinal está aberto: um homem de cadeira de rodas espera que os carros parem. Há nele agonias impossíveis às palavras. 

 

Noite de sábado: a chuva brilha nas lâmpadas. Numa esquina movimentada, próxima ao local onde haverá uma formatura, o homem do cachorro-quente e sua mulher assistem ao Super Cine, numa televisão improvisada. Nos intervalos comerciais, observam atentamente as mulheres com longos vestidos e os senhores engravatados correrem debaixo da chuva. Não há ninguém precisando de um cachorro-quente agora. O homem ri. A mulher treme de frio e volta a assistir TV.

 

Rubens da Cunha

- Postado por: Oficina às 21h06
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Os informais - Cont.

OS INFORMAIS

Uma crônica de Rubens da Cunha

 

(Análise crítica)

 

Maria José Limeira

 

Considero “crônica” e não “conto”, este texto bonito, “Os informais”, de Rubens da Cunha, que reflete em blocos separados os mesmos problemas humanos, na paisagem do nosso País, em ângulos diversos.

É uma prosa-poética.

Crônica é o mais que nosso amigo Rubens da Cunha sabe escrever, e faz isto como ninguém. Neste constante exercício, vai aprimorando sua prosa, com todas as letras.

Um belo texto!

Vocês, amigos & amigas, me desculpem a economia de palavras. Estou enfrentando problemas sérios com meu computador, e com o excesso de trabalho. Mas, acompanho atentamente o que se passa na Linda Lista, e agradeço a todos o quanto têm colaborado para valorizar nosso espaço.

Um beijo, Rubens querido. Obrigada por aceitar nosso desafio.

..........

 

Obrigado Maria pelas palavras.

abraços

Rubens

- Postado por: Oficina às 20h58
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Os informais - Cont.

Não tenho grandes pretensões sobre contos. Acho-os difíceis de escrever. Sempre que tento, ponho-me a criar esqueletos com inícios, meios e fins, e sempre dá tudo errado. Ao montar a criatura, não encontro o meio de dar vida a meus frankensteins (tão gordos ou tão magros, nunca criaturas saradas, ou mesmo enxutas), e quem dera um dia fosse capar de dar a vida a um verdadeiro Frankenstein (Mary Shelley que me perdoe a heresia de chamar de conto seu romance).

Então, quando leio um conto que gosto, sei dizer que gosto e por que gosto, mas não muito mais do que isso.

Este texto do Rubens me encantou, por que me lembrou, de certo modo, o filme "Cronicamente Inviável" de Sérgio Bianchi, que lança em quem o assiste máximas como "As pessoas que analisam a realidade adoecem mais de depressão e raiva", "A destruição da dignidade social pode virar característica cultural", entre outras que não anotei (e para não acharem que sou louco, assisti o filme há pouco mais de 2 meses, para um trabalho).

<<Os Informais>> fala a verdade, e encanta ao mesmo tempo que choca.

Nota-se o cuidado do escritor no enxugamento de orações iniciadas com o maldito "que". Maldito para os escritores, pois ele é um vício difícil de ser deixado de lado.

Certa vez, Manuel Rodrigues, escritor português, me disse em sugestão que eu reduzisse a quantidade de "que"s em um texto para 2% do total de palavras do mesmo.

No texto de Rubens, há 1%.

Gostei muito. É difícil escrever sobre o social e ainda assim ser poético. Rubens o fez.

Abraços

Anderson Santos

- Postado por: Oficina às 20h55
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Os informais - Cont.

Oi Anderson

Obrigado pelas considerações.

Apenas acho que você deveria rever teu posicionamento quanto a não escrever contos :))

eu também tinha este conceito, um dia surtei e comecei a fazer, transferi minha impossibilidade para o romance, um dia talvez eu surte de novo e começo a fazer um romance :)

Engraçado, assisti 'Cronicamente inviável", mas não foi uma referência no texto, apesar do meu olhar e do Sergio Bianchi serem muito semelhantes: este país precisa ser fechado, demolido e depois reinaugurado, enquanto formos remendando com as portas abertas , vamos piorando as coisas

:))

Rubens

- Postado por: Oficina às 20h52
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Os informais - Cont.

a facilidade do rubens da cunha para escrever crônicas me impressiona!

Gosto de tudo! tenho-as como cenas de cinema, tal a precisão - então, o jeito é ser repetitiva - parabéns!

líria porto

...........

 

obrigado Liria,

a crônica é resultado da disciplina, fico feliz que vc goste.

abraços

rubens

- Postado por: Oficina às 20h50
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Os informais - Cont.

Texto: Os informais

Autor: Rubens da Cunha

Comentário: Ademar Ribeiro

 

Esta crônica do Rubens parece ter sido colhida com uma câmera, em “flashs” cinematográficos, para documentário, cada segmento retratando breve saga do nosso simplório cotidiano urbano.

Até quando se refere a um dos seus personagens: “Há nele agonias impossíveis às palavras.”

Quer dizer, agonias a serem vistas na tela, em imagens, mas apenas insinuadas pelo autor.

Os personagens - no caso comerciantes, camelôs – são por demais  resignados, quase não transgridem a ordem estabelecida. Não protestam, não se batem com a Polícia nem negociam  com coisas proibidas. Entre eles, por exemplo, nenhuma prostituta fazendo o “trottoir” para ganhar a vida. Achei que faltou singularizar a miséria humana de cada um dos tipos descritos, tornando-a mais pungente.

...........

 

Obrigado Ademar

sds

Rubens

- Postado por: Oficina às 20h48
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Os informais - Final

Excelente crônica, Rubens. Olhos de jornalista, numa sonoridade poética. Quem disse que a dor não é poética? Meus parabéns, essa sua crônica está belíssima.

Dira.

...........

 

Obrigado Dira,

abraços

Rubens



- Postado por: Oficina às 20h45
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Exercício literário:

FOLHETINS DA PERIQUITA

Ademar Ribeiro, Maria José Limeira & Outros

 ..............................

 

Ola-á!!!

 Comú vai???

 Ademauzinho

...........

 

oi

 também acordei alegre, vi passarim verde! risos

 beijão

 líria

...........

 

 Líria:

 Essa minha mensagem foi dirigida à Maria José,

 parodiando o seu

 jeito de falar... Só que esqueci o destinatário..

 Ela anda calada demais pro meu gosto! Será que

 também viu "passarim"?

 Ademar  

 ..........

 

Êê! Tão mexendo com o que está quieto? Estou com um

comp. parado, e outro em dificuldades. É a maior

dificuldade para mandar mails para a lista, pois o

comp. não atende aos comandos. Deixem estar que eu vou

mostrar minha periquita a vocês! E o negócio aqui vai

começar a feder... Ah-ah! Maria José Limeira,

se guardando para as próximas!



- Postado por: Oficina às 01h10
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Periquita - Cont.

Periquita mostra quem tem

bacurau mostra quem pode.

Se eu temesse cara feia

não ia à feira de bode!

 (ademar ribeiro)

 

Periquita mostra cara.

Bacurau levanta tromba.

Quem vai à feira não pára.

Quem não vai explode bomba.

 (Maria José Limeira)



- Postado por: Oficina às 01h02
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Periquita - Cont.

periquita e bacurau

freqüentam a feira de bode

vai maria sem ademau

pois com ele tu num podes

 (líria porto)

 

Periquita & bacurau

brigaram fora de hora.

Um navega em triste nau.

Outro, com língua de fora.

(Maria José Limeira)



- Postado por: Oficina às 00h59
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Periquita - Cont.

Bacurau que é bom de briga

Enfrenta/ /até cheiro de bode.

Senta a pua em perseguida

Feito comigo-ninguém-pode.

 (Rogerio Santos)

 

 

Quem tem periquita geme.

Quem não tem é bacurau.

Periquita grita e treme.

O outro levanta o pau.

 (Maria José Limeira)



- Postado por: Oficina às 00h57
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Periquita - Cont.

Periquita, quando nova,

tem pena verde, brilhante;

mas, quando perde plumagem,

é pássaro repugnante.

( Ademar Ribeiro )

 

 

Periquita é a tal panela.

Quando velha, mais gostosa.

Já bacurau destrambelha.

Não sai de cima nem goza!

(Maria José Limeira)



- Postado por: Oficina às 00h54
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Periquita - Cont.

Bom pau serve de poleiro

a tudo que é de ave rara:

bacurau, jacu, arara.

Mas, com periquita nele,

logo enverga, vira vara.

(Ademar Ribeiro)

 

 

Toda vara que eu falo

anda ereta, fica dura.

A do bacurau, me calo:

é bunda de tanajura.

(Maria José Limeira)



- Postado por: Oficina às 00h52
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Periquita - Cont.

Periquita de todo jeito,

Verde, pelada ou caída,

Pro bacurau bom de briga.

Mas antes a pinga no peito.

( Rogerio Santos )

 

 

Toda periquita atrai

do bacurau o amor.

Mas este? Cai e não cai

como santo no andor.

(Maria José Limeira)



- Postado por: Oficina às 00h47
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Periquita - Cont.

Pro bacurau bom de briga

Periquita novinha é costume

Mas se a disgrama for véia

Só esfregando pedra-ume

(Rogerio Santos)

 

 

Passarinho quando é novo

voa de pau a poleiro.

Na velhice esconde o ovo

num recanto do chiqueiro.

(Maria José Limeira)



- Postado por: Oficina às 00h45
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Periquita - Cont.

Bacurau, de dia, dorme.

Periquita ganha o azul.

Agora chegou o Rogério

a quem vou chamar de Jacu.

(Ademar Ribeiro)

 

 

Quando o comércio se arrima,

freguesia tudo pode.

Mas bacurau não se anima.

Não sai de cima nem fode.

(Maria José Limeira)



- Postado por: Oficina às 00h43
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Periquita - Cont.

Tem uma história esquisita:

Bacurau com periquita;

Seria uma bacuquita

Ou perirau a maldita?

(José Nunes)

 

 

Misturam-se a periquita,

o bacurau e o jacu.

Ela é a mais bonita.

Os outros tomam... naquele lugar!

(Maria José Limeira)



- Postado por: Oficina às 00h40
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Periquita - Cont.

Tem bacurau que só dorme

Mesmo vendo periquita

Mas quando vê uma rola

Logo o safado se excita

(Rogerio Santos)

 

 

A coisa não é bem assim.

Periquita pinta e voa.

Bacurau só pensa em mim.

O jacu se ri à toa.

)Maria José Limeira)



- Postado por: Oficina às 00h38
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Periquita - Cont.

periquita depenada

bacurau não tem ferrão

nessa briga desgraçada

ele e ela perderão

(líria porto)

 

 

Quem pensa em ganhar em jogo

tire o cavalinho do sol.

Sem sorte, a vida é fogo.

Sem amor, o fim é pó.

(Maria José Limeira)



- Postado por: Oficina às 00h36
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Periquita - Cont.

Bacurau tá difamado

No meio das periquita

Fica em seu canto amuado

Mas se vê um Jacu, arrebita

 (Rogerio Santos)

 

 

Bacurau tome cuidado,

que a peia  é rabo de arraia.

Se está de cima, coitado.

Periquita veste saia!

(Maria José Limeira)



- Postado por: Oficina às 00h33
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Periquita - Cont.

Essa história vai ficando

muito pra lá de explícita,

com pardais, rolas, jacus

querendo cantar de galo

pra bacurau e periquita.

 (Ademar Ribeiro)

 

 

Quem se cansa entrega os pontos.

Quem prossegue continua.

Quem escreve dita contos.

Amor do sol é a lua.

(Maria José Limeira)



- Postado por: Oficina às 00h27
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Periquita - Cont.

E pra não fazer rima feia

dessas de arrancar o galho

que nem o Cão acredita:

-Vão todos chupar caju!

-Vão todos bicar cascalho!

( Ademar Ribeiro )

 

 

Não gostei dos palavrões.

Nem das rimas meio tortas.

Para não ouvir mais sons,

estou fechando as portas.

(Maria José Limeira)



- Postado por: Oficina às 00h25
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Periquita - Cont.

Quem não gosta come pouco.

Quem abriu tem que fechar.

Por isso reabro as portas

a quem quer continuar.

Quem tem verbo agüente firme

e quem não tem saia pra lá.

(Ademar Ribeiro)

 

 

Estou correndo da raia.

Meu verso não continua.

Antes que alguém me traia,

pulo pro meio da rua.

(Maria José Limeira)



- Postado por: Oficina às 00h22
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Periquita - Final

Se a Periquita é lerda

          e a Rolinha ronceira            

o Jacu é pássaro bom

e gostou da brincadeira.

Só não venha passar a mão

quando eu ficar de traseira.

( Ademar Ribeiro )

 

 

De traseira, a coisa pega.

De banda, deixe pra lá.

Não gosto de música brega.

E Gonzagão? Vou cantar!

(Maria José Limeira)



- Postado por: Oficina às 00h19
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