
UM TEXTO BONITO EM DEBATE:
“SEMENTE”, DE ANA MARIA COSTA
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Semente
Montes de terra
que escavo no olhar.
No corpo envolvo a manta de pó.
A humidade recebo com um beijo.
Encolho os ombros
nos arrepios e enrolo a vida!
Não há lua
Só estrelas no preto.
O silêncio respira pela raiz de uma flor.
Ana Mª Costa
SEMENTE
Um texto de Ana Maria Costa
(Análise crítica)
Maria José Limeira
Sobre “Semente”, de Ana Maria Costa, trata-se de um dos melhores poemas que a autora divulga entre nós, onde abundam as metáforas e todas as delicadezas que um texto precisa para se realizar como Poesia.
A Poesia dessa autora ainda trilha descaminhos, com altos e baixos, mas, no geral, com bons achados, o que prova que ela está procurando saídas para desempenhar suas angústias e dar sentido ao seu caos interior.
Achei muito interessante o texto citado, porque diz bem dessa busca do ser humano para definir sentimentos, a começar mesmo dos “montes de terra que escavo no olhar”.
Esse ato de “escavação”, realmente, é um grande achado, pois o que é a Poesia, senão cavar cacimbas, desenterrar cadáveres, remoer sofrimentos e dar luz ao que submerge nas trevas?
(Maria José Limeira é escritora e doce jornalista democrática de João Pessoa-PB)
Ana
belo poema, imagens delicadas, soltas, atravessando o olhar de quem lê. O último verso é um haicai lindo, gostei bastante do estilo limpo e singelo, mas longe da pieguice (praga que assola diversos poetas) da autora.
abraços
Rubens
Realmente, é lindo o texto da Ana. Eu diria até como Machado de Assis: lindíssimo! Mas, Rubens, sinceramente, eu não vi o haikai que você citou. No último verso? Magina! O espírito do texto inteiro é delicado, realmente, como o haikai... Eu acho que você usou uma metáfora, e transformou sua análise em outro poema. Viu, Rubens Lindo? Saludos. Maria José Limeira.
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Maria,
sou um libertário, o verso da ana não é um hai kai clássico, 5-7-5, nem foi feito para parecer um hai-kai, mas vi neste 'O silêncio respira pela raiz de uma flor' o espírito que norteia este tipo de poesia, por isso a citação.
quanto aos poemas do João, acho que ficou esclarecido, troquei o título do poema.
quanto ao espaço na minha agenda, às vezes eu surto e saio respondendo todos os emails, como agora ;)
beijo
rubens
Ana
Sou suspeito para falar deste poema.
É um dos meus favoritos.
Minha dúvida é de digitação
Humidade... não seria humildade? ou umidade?
quem sabe a (h)umi(l)dade?
Gosto muito dessa poesia, sem tirar nem por.
A imagem do silêncio que respira pela raiz de uma flor é de uma beleza ímpar.
Abreijos
Anderson
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Anderson, para mim não é erro de digitalização eu escrevo desta forma a palavra, humidade; eu sempre a conheci assim! Reparo que vocês Brasileiros escrevem diferente (umidade)!
Gostaria que o Mestre José Félix ajudasse nesta questão!
Anderson "Semente" nasceu no principio do ano mas foi regada durante uns meses, antes!
abreijos é uma mistura de beijos e abraços?
jinho
Ana
Opa!
Então desculpa.
Está desfeita a dúvida
Abreijos são sim, abraços com beijos
Abreijo
Anderson Santos
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Queridos amigos, a palavra "humidade" é a forma lusa da outra "umidade" brasileira. Saludos. Maria José Limeira.
Este relacionamento com portugueses de verdade me faz muito feliz.
Como é bom, penso eu, saber que por um acaso da poesia, possamos reunir a história de nossas raízes.
Estive em muitos países da Europa, nunca fui a Portugal por uma mera questão do acaso. Conheço algumas cidades e postais portugueses por fotos, é muito valoroso conhecer as pessoas daí, por idéias.
Não sabia que havia portugueses por aqui, sejam bem-vindos, desculpem-me a inconsciência.
Bj, Ricardo.
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Ricardo estás desculpado e como prova toma o meu beijinho.
Ana
NOVO TEXTO EM DEBATE:
“DES (RES) PEITOS”,
DE ANDERSON SANTOS
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Des (res) peitos
Se te declamo versos de saudades, é apenas escárnio o que tu captas.
Então te dou o frio do vento norte, uma noite sem estrelas, e a morte de um sonho que se atrela a um tufão.
O sofá de dois lugares suspira nuvens de poeira e negação. A negação é vermelha como um flash na retina, e revela o sangue que verte de tudo o que deixaste pra trás: copos de leite num vaso sobre a mesa, um par de chinelos de pelúcia, escovas de dentes e cabelos, de mim e do que me nutre. Vampirizo minha própria dor.
A estrada que escolheste trilhar deve ser florida e arejada, apesar de todos os meus votos contrários. Sempre optaste pelo fácil, pela cruz sem peso, pelo fascínio Eu não sou fácil nem leve. Sempre achei que estas eram virtudes fascinantes. Nunca pensei estar 100% certo.
Noite passada, no intervalo entre uma insônia e outra, sonhei com o tempo em que costumávamos ser nada além de um toda vez que o mundo teimava em girar ao contrário. Tardes de chuva, madrugadas sem energia, domingos sem grana. Levantei, fui até a cozinha, e preparei um macarrão instantâneo sabor galinha caipira, e me servi de uma sobra de coca-cola sem gás.
Não te declamo em versos de saudades. Talvez a mim, à razão, ou à tríplice cafeína, chocolate, nicotina, amém. Se te desejo mal é por que te desejo meu.
Já me jogaste nos braços das minhas carências e isso basta. Não me jogue elas nas faces.
Preparo um café forte, acendo um cigarro pelo filtro, esbravejo, acendo outro pelo lado certo, abro um pacote de biscoitos recheados sabor chocolate. Pronto. Isso deve servir.
A leste o sol inicia sua trajetória rumo ao ocaso. O apartamento tem janelas voltadas para oeste e sul. Uma bela escolha para as tardes em que sentávamos em silêncio para ler o mesmo livro.
Chove, chove, chove, chove, chove, chove, chove, chove, chove, chove, chove, por favor...
Blasfemo um Deus que concede o sono aos ateus, e me permite ficar aqui enquanto lembranças se materializam em formas geométricas na camada de pó que se acumula na mobília. Então caio no sono e sonho com a hora do adeus em modo repeat, definição de alta qualidade, som stereo surround num home theater, tudo para tornar a dor cada vez mais real, palpável, potente.
Não vai passar. Não quero mais ouvir que vai. Me deixa aqui quieto enquanto me acostumo a viver com o que sobrou de mim. Para ti? Sorte! É isso que falta aos despreparados.
Para mim?
Sorte...
Muita sorte...
Anderson Santos
Anderson,
bom texto, penso que precise de algumas aparas nos excessos, principalmente os visivelmente 'poéticos', penso que esse passeio pelas coisas, alimentos, cenários coloquiais, cotidianos, já revela uma poesia entremeada no patético, que é o melhor do texto. coisas como "Então te dou o frio do vento norte, uma noite sem estrelas, e a morte de um sonho que se atrela a um tufão." me soam desnecessárias frente ao cigarro, ao macarrão instantaneo, à chuva. Faltou este equilíbrio, ou melhor, faltou opção entre ficar com um texto tristemente coloquial (e isso seria ótimo) e um texto tristemente poética, cheio de imagens e exasperação. A mistura entre os dois, neste caso não resultou a alquimia necessária, repito, porque você não podou os excessos.
é isso,
abraços
Rubens da Cunha
Olá Rubens
O texto, então, não funcionou
O jogo que busquei foi exatamente o do equilíbrio entre o lírico, direcionado ao vulgar, e o vulgar, direcionado ao lírico. Aparentemente sem sucesso.
Obrigado pela análise esclarecedora.
Abraço
Anderson
DES (RES) PEITOS
Um texto de Anderson Santos
(Análise crítica)
Maria José Limeira
Eu gostei muito desse texto “Des (res) peitos”, de Anderson Santos, apesar de um tanto prolixo e dos lugares-comuns. É uma mistura de Prosa com a Poesia em seu sentido mais puro. Aqui e acolá, tropeça, mas se reergue mais adiante, como se nada tivesse acontecido.
Porém... Porém... Se me fosse dado o direito, ele seria reduzido apenas ao primeiro parágrafo: “Se te declamo versos de saudade, é apenas escárnio o que tu captas”.
Pra que tanto blá-blá-blá, se os restantes do texto são somente derivações em torno desse parágrafo citado, que está mui lindo?
Um abraço e saludos.
(Maria José Limeira é escritora e doce jornalista democrática de João Pessoa-PB)
Não foi um texto capaz de despertar sequer análises, Zezinha.
Apenas tu e o Rubens se manifestaram a respeito dele.
Vou guardas os dois versos resumo, e tentar usá-los em algum outro texto um dia.
Abraços, e obrigado pelo comentário
Anderson