
2.960 acessos ao blog
da nossa Oficina Literária.
Obrigada aos amigos e visitantes.
Falem com a gente:
Dira Vieira
Maria José Limeira
A Temática em poesia
Fala-se cada vez mais na temática da poesia e cada vez menos nos temas da poesia. Fala-se e diz-se muito mal numa época de poesia enlatada onde todos parecem escrever sobre o mesmo, do mesmo, o mesmo.
A temática nada mais é que o conjunto dos temas de uma obra literária, musical, etc. Um livro de poemas pode ter uma temática, portanto versar sobre vários temas. Daí ao falar-se da unidade do livro, ou seja da unidade temática, vai uma distância muito grande.
Poesia temática existe onde houver ligações entre os temas, mesmo que essas ligações sejam longínquas. Lembremo-nos dos livros de António Ramos Rosa onde a água, o cavalo, a nuvem, a palavra são temas que entram na mesma obra, cuja temática se interliga e origina a unidade desejada pelo autor.
Eugénio de Andrade vai mais longe nos livros de poesia, fazendo-os com menos poemas do que é habitual, com a matéria temática mais densa, mas, mesmo assim, sendo objecto de vários temas.
Como propósito do texto coloco aqui, e nos dias seguintes, alguns poemas inseridos no projecto "Suicidário".
restos de uma chama
as agulhas espetam-se na pele
chegam ao coração da escrita viva
e sinto o sangue aos borbotões passando
no ventrículo esquerdo como o vómito
na esquina da cidade após a noite de ausência.
a sombra do caminho envolve a luz
do rosto que se apaga a cada passo.
pássaros mortos saboreiam-me a língua
na itinerância do lugar à espreita
que levem o meu corpo para o meio
da cinza fácil restos de uma chama
que iluminou a vida sem querer.
josé félix in Suicidário
.......................
Fonte: A Teia da Aranha
http://www.ateiadaaranha.blogspot.com/
UM TEXTO BONITO EM DEBATE:
“O QUE CALA, ARDE...”
DE AMINA RUTHAR
...........
o que cala, arde...
um pranto descarnado desborda na calçada
como metáfora amarga sangra o peito
seco a enganar a fome do menino
na manjedoura de concreto
reluzentes
como reis magos três latões de lixo
desviando-se da miséria
cristãos blindados atravessam a rua contritos
é missa de domingo!
Amina Ruthar
RJ-08/01/2006
O QUE CALA ARDE...
Um texto de Amina Ruthar
(Análise crítica)
Maria José Limeira
Estou abismada com esse texto “O que cala arde...”, de Amina Ruthar. Parece um discurso único, original, que a gente não pode comparar a nenhum outro autor. Fica assim suspenso, no ar, como se não dependesse de ninguém para existir. Aliás, a maioria dos textos de Amina tem essa particularidade.
Apesar de se esconder atrás dos mistérios de suas metáforas, é um texto claro, de fácil entendimento, incisivo, sem meias palavras, que vai direto ao assunto.
Porém... Porém... & porém... O título, no meu parco entendimento, não tem nada a ver com o conteúdo. E ainda por cima... Por que as reticências (... os tais três pontinhos) no título? E porque esse título?
Salvam-se a forma escorreita, o Português elegante e a surpresa final.
Gostei.
(Maria José Limeira é escritora e doce jornalista democrática de João Pessoa-PB).
MAIS UM TEXTO EM DISCUSSÃO:
“CLARIM”, DE LÍRIA PORTO
...........
clarim
líria porto
no parque perto de casa
tem uma roda-gigante
eu penduro os olhos nela
e fico tonta o bastante
pra gritar como é preciso
igual no alto-comando
crianças do mundo uni-vos
reivindicai esperança!
CLARIM
Um texto de líria porto
(Análise crítica)
Maria José Limeira
Eu gostei desse texto “Clarim”, de líria porto. É mais um exercício poético do que propriamente um achado desses que a autora costuma divulgar na internet. Esse “Clarim” saiu de estouro, como bomba-rojão. Curto, grosso, e fazendo barulho. Ah-ah!
A autora é uma poetisa compulsiva que de tudo faz samba, rodopia, sai dançando alegremente, como uma menina. E... muitas vezes, não mede as conseqüências.
É uma das autoras mais produtivas que conheço na internet.
Brinca com as palavras, saracoteia, faz ironias, e está sempre feliz.
Felizes somos todos nós de dividirmos espaços com ela, na internet, por telefone, e no mundo real.
Saludos, líria linda.
(Maria José Limeira é escritora e doce jornalista democrática de João Pessoa-PB)
cara maria
passei tantos dias sem receber mensagens, não sei o que está havendo... nem sei os textos que estão sendo analisados, creio não tê-los recebido, nem os comentários de ninguém, só o teu... de qualquer modo, obrigada pela tua análise, esse é a primeira mensagem que recebo do grupo nos últimos dias...
beijão
líria
...........
Líria, faz mais de três dias que o Yahoo Brasil está com problemas. Não dá acesso aos endereços. Estou entrando em meus emails a partir do Yahoo.com/ (americano, em inglês). As listas do yahoogrupos estão com este problema. Mas, acredito que é caso de "manutenção técnica", e logo será sanado. Um abraço. Saludos. Maria José Limeira.
NOVO TEXTO EM DEBATE:
“DISTRAÇÃO”,
DE MARIA LÚCIA DE ALMEIDA
...........
DISTRAÇÃO
Maria Lúcia De Almeida
Eu que pensei
Houvesse encontrado um anjo
E no anjo, o amigo esperado
E no amigo, meu refúgio.
Eu que pensei
Houvesse - finalmente - encontrado a paz
E na paz do amigo
O amor tão desejado.
Qual... mera distração
No mensageiro da ilusão
Na melodia dos banjos
Só banalidades!
No homem que não é anjo
E na tal sedução clichê, tão iguais!
DISTRAÇÃO
Um texto de Maria Lúcia De Almeida
(Análise crítica)
Maria José Limeira
Ao conhecer alguém, a gente cria expectativas quanto à pessoa, imagina-a de acordo com nossas próprias necessidades, fantasia esse alguém conforme nossa própria cultura e nossas carências afetivas. Existem, portanto, duas personagens em nosso conhecimento possível: a primeira, real, segundo ela mesma. A outra, fruto de nós mesmos.
Porém, desse engano tácito, pode resultar uma decepção, quando a gente descobre a verdade que não queria ver. Mas, por outro lado, podem surgir agradáveis surpresas...
O texto “Distração”, de Maria Lúcia De Almeida, toma essas premissas como ponto de partida, onde a autora discorre sobre o “anjo que não era” e sobre a triste “sedução clichê”, quando a fantasia desaba e o objeto de desejo não passa, realmente, de uma “distração”.
É um poema bem construído, embora em linguagem simples, cheia de lugares-comuns.
O título bem poderia ser “Dis-tração”, ou “Des-tração”, quando a roda começa a girar em sentido contrário, ou “Des-construção”, quando a imagem fantasiada começa a ficar nua, sem as máscaras que lhe emprestamos.
De um jeito ou de outro, é a maneira inteligente que a autora encontra para interpretar, de forma concisa, uma certa amargura causada pelo fato de esperar tanto e receber tão pouco...
Um belo texto!
(Maria José Limeira é escritora e doce jornalista democrática de João Pessoa-PB).
Obrigada, Maria!
Gostei demais de sua crítica e me senti lisonjeada com suas palavras.
Achei ótima sua sugestão em trocar o título para "Des-construção"; penso que foi exatamente o que aconteceu comigo, em relação as minhas expectativas, na época em que escrevi o texto.
Um beijo e saluto!
(Maria Lúcia)
.............
Fonte:
Comunidade “Discutindo Literatura”
SOLIDÃO
Ricardo Pinto
Essa minha solidão
Que não me deixa assim tão só...
Essa minha solidão, meu chão,
Que se une a mim, o pó.
Essa minha sina, companhia
Me deixa na nuvem, assim bem solto...
E, se em sono, ou em pleno dia,
Vem, se une a mim, e, eu envolto,
Sinto um gozo, assim, profundo,
Pois ela vindo e me tirando um pedaço
Me dá a vida e todo o mundo,
O qual eu beijo e logo dou um abraço,
Meu amigo em que crio e fecundo...
Neste abrigo me desfaço e faço meu próprio regaço...
............
ricaparapi@terra.com.br
www.fotolog.terra.com.br/o_canto_do_artista
SP, Brasil
17/03/2006 23:46