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UM TEXTO BONITO EM DEBATE:

“A MORTE DA FALA”, DE JOSÉ FÉLIX

.........................

 

a morte da fala

 

apareces reduzida na mais ínfima admiração.

até as palavras apetrechadas de asas

- já não têm a beleza da água -

estão despidas do barroco que tanto

aplauso esconderam na mediana da noite.

é para veres, porque já o sabes,

nem sempre a cinza é o parto da chama,

e o pó da fala arrefece, sem remédio ou cura,

no desprezo mais profundo da escrita em repouso.

não há luz que centelhe na escuridão

quando uma palavra, em silêncio, morre

com a visão dos tristes a prestar-lhe tributo.

 

josé félix

2006.03.03



- Postado por: Oficina às 01h08
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A morte da fala - Final

A MORTE DA FALA

Um texto de José Félix

 

(Análise crítica)

 

Maria José Limeira

 

Eis aqui um texto (“A morte da fala”, do poeta português José Félix), que é o supra sumo de todos os textos que conheço do autor. Poema por excelência, esse texto parece resumir, em poucas linhas, toda uma obra que o autor realiza, pesquisando linguagem, construindo seu discurso pausadamente, com ritmo, musicalidade, tensão e drama,  onde todas as possibilidades se cumprem, e parece ter vida própria. No entanto, fala da morte e, particularmente, da “morte da fala”...

É belíssimo esse poema. De tão leve, voa!

Construído a partir da terceira pessoa – o eu ausente – conta uma história cheia de mistério, escondida atrás da metáfora, que dispensa a urna funerária porque o etéreo não tem corpo, sendo, pois, a personificação do “sublime”, do “elevado” (enlevado?) e não precisa de carcaça para se materializar.

Pois aqui se trata, senhoras & senhores, da “fala” e, muito particularmente, da “morte da fala”, como se fosse um velório sem defunto, sem caixão, e sem carpindeiras que o chorassem. Sendo só, e absolutamente, a fala como discurso de solidão.

Este texto se realiza em dois planos.

No primeiro cenário, temos um narrador que se dirige ao interlocutor imaginário (a fala) e, na cena final, “a visão dos tristes a prestar-lhe um tributo”. Neste caso, realiza-se um ato cinematográfico (do parece que estou vendo) que retorna ao início do poema, num corte espetacular, onde todos são autores (atores?). E isto é que dá movimento e dramaticidade ao texto.

Fora todos os sintomas de que se trata, realmente, de Poesia com todas as letras, falar da técnica perfeita, e de como se adequa ao conteúdo, a partir do título, seria, no mínimo, chover no molhado.

 

(Maria José Limeira é escritora e doce jornalista democrática de João Pessoa-PB).



- Postado por: Oficina às 01h04
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NOVO TEXTO EM DEBATE;

“QUASE OSSO”, DE RICARDO PISOLER

..................................

 

Quase osso (r.pisoler)

  

Quando o ódio,

pula sobre minhas veias,

e ataca a carne tensa de ilusões,

avermelhando minha face,

tingindo meus tecidos,

transformando-me em monstro,

um grito.

Sai dali pruridos de minha angústia,

cadáveres de meus pecados,

ócios de minha preguiça,

desmaltada,

crua.

Quando o ódio,

parte por meu parto,

sem dano algum a outro,

simplesmente camuflado,

liberto-me,

aos poucos.

Torno a ser minha maioria,

do silêncio a calmaria,

da felicidade um poço,

findo em mim,

quase osso.

Acordo feito um mar,

solto do horizonte,

sal sem cativeiro

revolto



- Postado por: Oficina às 00h25
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Quase osso - Final

QUASE OSSO

Um texto de Ricardo Pisoler

 

(Análise crítica)

 

Maria José Limeira

 

Meus amigos & Amigas. A internet, ferramenta admirável de encurtar distâncias e aproximar pessoas, transformou-se, atualmente, em meio de difusão do ódio – o amor tão esquecido – que as pessoas usam para desabafar rancores, trocar tapas e mandar balas. Uns odeiam nordestinos. Outros acham que os presos não têm direitos. Tem gente que odeia homossexuais. Outros defendem a violência contra crianças, etc. etc. Uma minoria, infelizmente, que tenta cultivar ética no ciberespaço e direitos humanos para todos, fica acuada no meio do tiroteio, e acha mais prudente silenciar.

Este texto “Quase osso”, de Ricardo Pisoler, mastiga um ódio particular e único, que deve ser digerido e ruminado sem causar danos, pois o que acontece é que ninguém é de ferro e, no meio da zona de perigo, há que se resguardar de um mal que parece atingir a todos, com algum rompante que sirva, no mínimo, de desabafo.

Até Mário Quintana teve suas explosões de raiva, que expressou candidamente, por exemplo, neste texto que eu considero de uma sabedoria exemplar, como resposta a um meio  hostil:

“Estou triste...

Não aquela tristeza daqueles que ao invés de se matarem escrevem poemas

Estou triste porque vocês são burros e feios.

E não morrem nunca.”

O texto de Pisoler, contudo, não chega a estes extremos, e se desenvolve em maquinações e pensamentos interiores, que visam apenas refletir um estado d´alma de insatisfação contido em si mesmo, sem se transformar em problema social.

É um texto elegante, com uma linguagem poética que tem de ser desvendada. Gostei muito, embora tenha notado nele alguns senões, que não prejudicam o todo.

 

(Maria José Limeira é escritora e doce jornalista democrática de João Pessoa-PB)



- Postado por: Oficina às 00h23
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NOVO TEXTO EM DISCUSSÃO:

“MÃE”, DE ANA MARIA COSTA

............

 

Mãe

 

A tua essência bebo

nos beijos de fêmea.

 

Procuro o fio do umbigo e guardo-o.

 

Ouço no teu interior o caos e respiro lama na placenta morta.

 

Visto de vermelho o corpo mas

penso no preto.

 

O frio é o laço e

as lágrimas o alimento. 

 

Ana Mª Costa



- Postado por: Oficina às 00h19
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Mãe - Cont.

este texto encerra uma actividade intelectual e comportamental, que é o «eterno retorno» ou o regresso ao decúbito ventral. é um comportamento poético que nos transporta para o mito de fénix: renascer das próprias cinzas.

neste poema o autor deseja o regresso à ante vitae, ou seja, ao ventre materno. é um desejo gorado, uma vez que o autor deseja, também, a morte. a dicotomia morte / vida está explícita na estrofe "[...] Visto de vermelho o corpo mas / penso no preto[...]". eu trocaria a estrofe por "[...]

Visto de  vermelho o corpo e / tenho o preto[...]" uma vez que é a condição natural do poema, retirando o efeito desejado a conjunção adversativa «mas». também trocaria "morta" por "seca". a ideia clara do decúbito ventral é clara em  "Procuro o fio do umbigo e guardo-o", idealizando uma permanência de onde não se pretende sair.

a ana maria vem revelando alguma reflexão nos poemas que cria, e isso é muito bom.

josé félix



- Postado por: Oficina às 00h16
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Mãe - Final

SOBRE O TEXTO “MÃE”, DE ANA MARIA COSTA

Maria José Limeira

 

O tema é batido, comum, mais do que explorado por poetas de todos os tempos.

Porém, o que chama a atenção neste texto “Mãe”, de Ana Maria Costa, é que parece uma homenagem às avessas, com apelos dramáticos que não encontro em outros autores.

Portanto, trata-se  de um texto original e único, rico em metáforas, que segue em vários planos, sempre mantendo a tensão entre útero e feto, morte e vida, com nuances de cores,  ora  vermelhas e, depois, pretas. As cores vibrantes do escândalo.

Chamo a atenção para a inclusão de um eu-lírico atento e observador, que faz parte da narração, e que interage como elemento aglutinador.

Por mim, não acrescentaria e nem retiraria uma vírgula do que está escrito, pois se realiza em ritmo e musicalidade, sendo estas as qualidades essenciais à Poesia.

Aiaiai, meninos & meninas, é um texto emocionante!

 

(Maria José Limeira é  escritora e doce jornalista democrática de João Pessoa-PB)



- Postado por: Oficina às 00h13
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